
Ao menos uma vez na vida todo amante do cinema deveria ver “Meu jantar com André”, de Louis Malle. Pode ser um desafio ao espectador não afeito a um “tipo contemplativo” de cinema, mas também não é um simples jogo de exercícios para um espectador supostamente sofisticado.
Por duas horas, Wally e André conversam. Dois autores de peças de teatro, em crise. Enquanto comem, conversam sobre suas vidas. Ao final, despedem-se. Nada poderia soar mais banal, e curiosamente alguém já apontou “My dinner” como uma obra desprovida de clichês.
O que haveria de tão fascinante no filme? Preocupações com enredo? Tudo soa improviso e sinceridade, mas não como no recente “Dez”, de Kiarostami, outra obra que instiga pela economia de movimentos. No entanto, com os poucos planos, soa originalíssimo, com suas questões existenciais que surgem. E se entrelaçam suavemente com questões pessoais – como o porquê de usarmos um “cobertor elétrico” ou problemas sobre o entendimento entre seres humanos.
“My dinner” surpreende talvez porque sempre esperamos demais. E uma mera conversa parece não satisfazer, num primeiro momento. Tudo ecoa sinceridade, sem afetação, a loquacidade típica de qualquer conversa. André, em dado momento, encara nossa sociedade como perdida, um antro de “robôs”. Talvez isso ajude a explicar os moldes do quadro de Louis Malle: certo pessimismo pré-aceito com nossa condição humana, e portanto, com a arte. Sem precisar exatamente de grande encenação, dois rostos que se defrontam, com a simpatia e o mínimo de amizade exigidos, para tentar se situar face ao caos do mundo.
Encanta sobretudo pela capacidade de trazer empatia com (aparentemente) muito pouco. Filme de ator, mas tão perfeito nos closes que parece planejado nos mínimos detalhes. É mais um filme “falado” o “Um filme falado”, de Manoel de Oliveira. E tem algo de Bergman, mais no começo e fim, e o Satie ao final lembrará “Another woman” de Woody Allen (realizado depois). Mas se provoca alguma perturbação, é por trazer uma questão implícita sobre os valores do cinema e da arte. Precisamos de excessos para nos entender? Precisamos de mais mobilidade ou barulho?
Em dado momento, pensamos, como seria a continuação de um filme assim? Parece inclassificável. Inviável. Único, embora inúmeros os filmes em que pessoas façam refeições e discorram, ainda mais sobre temas um tanto exóticos.
Malle converte pouco em muito. Pode parecer cansativo, mas será sempre instigante.
19hs57
Por duas horas, Wally e André conversam. Dois autores de peças de teatro, em crise. Enquanto comem, conversam sobre suas vidas. Ao final, despedem-se. Nada poderia soar mais banal, e curiosamente alguém já apontou “My dinner” como uma obra desprovida de clichês.
O que haveria de tão fascinante no filme? Preocupações com enredo? Tudo soa improviso e sinceridade, mas não como no recente “Dez”, de Kiarostami, outra obra que instiga pela economia de movimentos. No entanto, com os poucos planos, soa originalíssimo, com suas questões existenciais que surgem. E se entrelaçam suavemente com questões pessoais – como o porquê de usarmos um “cobertor elétrico” ou problemas sobre o entendimento entre seres humanos.
“My dinner” surpreende talvez porque sempre esperamos demais. E uma mera conversa parece não satisfazer, num primeiro momento. Tudo ecoa sinceridade, sem afetação, a loquacidade típica de qualquer conversa. André, em dado momento, encara nossa sociedade como perdida, um antro de “robôs”. Talvez isso ajude a explicar os moldes do quadro de Louis Malle: certo pessimismo pré-aceito com nossa condição humana, e portanto, com a arte. Sem precisar exatamente de grande encenação, dois rostos que se defrontam, com a simpatia e o mínimo de amizade exigidos, para tentar se situar face ao caos do mundo.
Encanta sobretudo pela capacidade de trazer empatia com (aparentemente) muito pouco. Filme de ator, mas tão perfeito nos closes que parece planejado nos mínimos detalhes. É mais um filme “falado” o “Um filme falado”, de Manoel de Oliveira. E tem algo de Bergman, mais no começo e fim, e o Satie ao final lembrará “Another woman” de Woody Allen (realizado depois). Mas se provoca alguma perturbação, é por trazer uma questão implícita sobre os valores do cinema e da arte. Precisamos de excessos para nos entender? Precisamos de mais mobilidade ou barulho?
Em dado momento, pensamos, como seria a continuação de um filme assim? Parece inclassificável. Inviável. Único, embora inúmeros os filmes em que pessoas façam refeições e discorram, ainda mais sobre temas um tanto exóticos.
Malle converte pouco em muito. Pode parecer cansativo, mas será sempre instigante.
19hs57

2 comentários:
Não vi o filme, mas já desfrutei de um jantar com o Andre... rs
Malle é sempre instigante, mas não conheço essa obra dele.
O Falcão Maltês
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