quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Harpo e a Harpa

Um diabinho angelical

Harpo Marx parecia uma criança, em todos os sentidos. Uma criança feliz.

Era o "anjo barroco" mudo (seus personagens eram mudos, mas Harpo falava). Sempre com um sorriso meio irresponsável, com ares ingênuos, daquela ingenuidade que permite qualquer tipo de diabrura.

Não sei se era bom dançarino como o esquecido Zeppo; era mais engraçado que o parceiro Chico, certamente, e não precisava daquele cinismo provocador do grão-mestre Groucho.

Pra muita gente, era o melhor de todos. Incrivelmente nonsense, surreal mesmo, ilógico e maluco, Harpo era por si só o Humor. Era assim no cinema mudo e passou mudo ao cinema falado.

Groucho, ao contrário, era mais brilhante quando falava, soltava pérolas e era a mais cínica das criaturas.

Este apelido, "Harpo", advinha justamente de seu hábito e passatempo com a harpa, que tão bem tocava. Abaixo, um vídeo com um trecho famoso de "Os gênios da pelota", de 1932 (o título é " Horse Feathers"), que funde com magia aquela "ingenuidade travessa" de Harpo com a doçura angelical da Harpa.

Aqui, nosso pequeno diabinho é um Anjo. Um anjo do cinema.



21hs33m

Niterói


Como pequeno registro, as fotos que tirei do Museu de Arte Contemporânea de Niterói - que tive o prazer de visitar semana passada.


A força dos círculos em Niemeyer pode ser interpretada como a busca da totalidade - a representação do self. Basta lembrarmos de sua mandala na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.


Aqui, a obra possui o privilégio ímpar de vigiar a Baía da Guanabara, o Forte de Santa Tereza, o Pão de Açúcar e as luzes do Rio de Janeiro.

12hs15m

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Kevin Costner (e o mundo imperfeito)


Há milhares de anos atrás escrevi que se Brad Pitt melhorasse poderia ser um Kevin Costner, não mais que isso. Sim, ser um Kevin Costner possuía, no contexto, todos os contornos pejorativos.

Uma injustiça evidente, e que se baseava mais em minha percepção do que em dados concretos - como as anti-premiações que marcam a carreira de Costner, como três framboesas de ouro como pior ator e brincadeiras do gênero.

Costner é um ator irregular, como é Mickey Rourke. Apareceu na década de 80 com filmes meio questionáveis, virou astro com o maravilhoso "Os intocáveis" de Brian de Palma, atuando ao lado de Sean Connery e Robert De Niro. Manteve-se em evidência até a consagração com "Dança com lobos", seu faroeste ecológico repleto de ternura e que divide a crítica até hoje.

"Dança com lobos" foi o ápice, a consagração do diretor e ator, uma proposta arriscada que deu certo. E o ator Kevin Costner teria mais bons momentos: viveria o Kennedy do Oliver Stone, além do sucesso em "O guarda-costas" e "Robin Hood" - este, dirigido por Kevin Reynolds.

Como ator, nada vai superar "Um mundo perfeito" - talvez nem seja sua melhor atuação, mas que se ombreia com "The Untouchables" como melhor filme de sua carreira.

Em 1995, voltou a parceria com Reynolds no catastrófico "Waterworld, O segredo das águas". Com um orçamento altíssimo, foi retumbante fracasso de crítica, de público, tornou-se quase um cult pela inconsistência do filme, caríssimo e tosco, com atuações grosseiras, um manual de como não se faz.

Daí, Costner fez "O mensageiro" - massacrado -, ganhou mais uns dois framboesas de ouro e só voltou com o faroeste "Pacto de Justiça" (Open Range), com Robert Duvall. Exagerado, meio artificial, com belos momentos, ótima diversão, excelente passatempo. Uma pequena volta por cima.

Casos como "O segredo das águas" mostram certo lado cruel da indústria do cinema - que não perdoa fracassos, arruína reputações (como fez com Paul Verhoeven), exila cineastas e atores. Alguns como Matt Dillon e Charlie Sheen (aquele de Two and a Half Men) foram jovens pro exílio e até hoje não retornaram.

Brian de Palma recebeu diversas indicações ao "Oscar dos piores", e foi detonado depois de "Fogueira das vaidades"- filme de sutileza e provocação. É o mundo imperfeito do cinema e da mídia, que pode fazer nascer ou morrer ídolos quando quiser - embora não tenha regência direta sobre o talento, algo intocável, pra lá dos humores da fama e dos ingressos e até das críticas negativas.

Travessuras ou gostosuras?

O sequestrador do menino Buzz é Butch, fugitivo da justiça que tem horror a quem maltrata crianças, é um "outsider" sem rumo e com caráter e dá ao menino algo então desconhecido - um pai.

¿Dá pra conceber coisa mais doce (em todos os sentidos) que o momento em que, caído e próximo do fim, Butch pede aos guardas texanos que recolham doces pra "travessura" do menino, com aquela roupa de Gasparzinho, sob o olhar terno de um Clint Eastwood coadjuvante e perplexo?



00hs42

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Redenção de Mário Peixoto

Arthur Rimbaud (1854-1891)

"Só o Depois-de-amanhã me pertence"

Nietzsche

Segue ao fim da postagem vídeo com trecho inicial do misterioso e encantador "Limite" (1931), obra do menino Mário Peixoto - a única que realizou, virou lenda, mentira e verdade, ressurgiu das trevas e é um dos filmes mais cultuados do Cinema.

É curioso notar, aliás, como a lenda se sobrepõe ou ao menos se igual à própria grandeza da arte. "Limite" ficou mais de quatro décadas fora do mapa, comentado por muitos, algo como o famoso gol de Pelé na Rua Javari - sem registro, e talvez por isso tão venerado.

Evidente que isso demonstra a importância do simbólico em nossas mentes. Nem é tão raro ver cinéfilos postergando ver algum clássico, por medo de que o "mito caia". Às vezes é o meu caso: tenho muito medo do cinema. Nietzsche - este formidável aforista - tinha razão: há certas coisas que não devemos conhecer.

Certamente a lenda "Limite" encontrou forte contrapeso no filme "Limite". Um filme de experiência, de desespero, um sinal prévio do próprio silêncio artístico de Peixoto. Minucioso, surreal, existencial, acima de tudo com enquadramentos fortíssimos, de uma força intuitiva e poética fortíssima.

Mário Peixoto é para o cinema o que Rimbaud é para poesia. O bardo francês parou aos 19 anos, Peixoto compôs "Limite" com cerca de 22 anos. Tentou o cinema ainda, mas não chegou a concluir outra obra. Como o autor de "Iluminações", provou também seu "suicídio artístico".

Rimbaud, aliás, morreu antes dos 40 e nunca teve noção de seu sucesso - estava vendendo armas na Àfrica e Oriente Médio. Não sei como Mário Peixoto se sentia imaginando que sua obra estava perdida, por tanto tempo. E o que terá ocorrido quando do inesperado reencontro?

Pra alguns, só mesmo o "depois-de-amanhã"...

Aliás, é bom lembrar outro caso de redenção (literalmente) no cinema nacional, de importância e mérito sainda não bem avaliados. Trata-se da redescoberta e restauração do filme "Redenção", do baiano Roberto Pires, o primeiro longametragem da Bahia e obra de influência marcante em Glauber Rocha.

Aliás, os mais sabidos bem entendem a importância de Roberto Pires pro Cinema Nacional. Um dos restauradores da obra é o cineasta e jornalista Aléxis Góis, que também escreveu a biografia do autor de "Redenção" - trata-se de "Roberto Pires: inventor de cinema", obra precisa, sem rodeios e não desprovida de beleza. Falaremos mais de Roberto Pires neste espaço, noutras ocasiões.

A música é de Satie, mas a versão orquestral é de Claude Debussy.



00hs21m

domingo, 15 de novembro de 2009

"Santiago" reúne Vida e Arte em reflexão


Ver "Santiago" é como ouvir aquele disco querido da infância, numa vitrola velha. Uma música calma, alegre ou triste, com o acento forte dos chiados e a da agulha envelhecida.

Mais ou menos como antigos discos de Liszt ou Vivaldi que ouvia quando menor, todos desgastados e severamente sonoros, ecoando até hoje seu zumbido mesclado em minha cabeça.

Pois João Moreira Salles filosofa sobre o milagre do amor ao cinema. E também faz seu milagre ao esculpir a memória de "Santiago". Mas acima de tudo, importa aqui o cineasta que erra, e o que acerta torna-se quase acessório - um feliz acessório, é claro.

Pois o jovem João Moreira não pára* de interromper o culto mordomo da família; picota as coisas interessantes, chateia o cavalheiro à exaustão. É maçante, distanciado, frio demais, como ele próprio revela ao final: não deixou de ser jamais o patrão de Santiago.

Pois será justamente a maturidade do artista o aspecto importante. É um trabalho sobre a potencialidade do cinema, seus perigos de edição, um alerta aos iniciantes. É forte demais não porque tem muito, mas pelo pouco que conseguiu colar ao final, numa ambivalência do cinema que funciona como resgate e homenagem, e também como reflexão perene sobre si.

Cinema, aliás, como retrato da maturação do artista. E certamente o "Santiago" lançado poucos anos atrás interessa mais que o exercício do jovem João Moreira, treze anos anos antes.

*Português arcaico, um hábito meu. Tive preguiça de tirar o acento.



23hs27m

domingo, 8 de novembro de 2009

O Imortal Artista e o Cachorro Morto

"Sê guiado pelos Anjos"

Não careço nem ponto nem vírgula pra afirmar que Anselmo Duarte, desencarnado ontem, é um dos nomes essenciais do cinema brasileiro - e sempre o será.

Sua láurea em Cannes, que desbancou Antonioni e Bresson, foi vítima da neoinveja instaurada, apoiando sua mágoa no suposto conservadorismo dos moldes do filme. Anselmo foi tão conservador com "O pagador de promessas" quanto Vittorio De Sica em "Ladrões de bicicletas".

Ou seja: ¿ e lá estava Anselmo interessado em imitar Godard ou o penteado do Chabrol, andar com a gola olímpica do Truffaut e especular sobre a metafísica do cinema? Seu interesse estava em bem contar uma história, acima de tudo.

Como ator, foi um monstro. "Os casos dos irmãos Naves", do inovador Luís Sérgio Person, é exemplo único.

Nasceu em 1920, em Salto. E morreu ontem. Dia 7 de novembro de 2009 - Pr´este garanto que Morte não tem.

Cachorro magro

"A men called Caê" - Nasc. 1942 1978

Ah sim, hora de rastejar um pouco.

Começa em mim a erupção de indignação contra os que atacam o pobre Caê Veloso®.

Afinal, essa lorpa ambulante (é o cara da foto acima) tem tanta coerência intelectual quanto um jogador que beija o escudo do Palmeiras e vai pro Corinthians.

Caetano® é um caso de persona que quer a qualquer preço sobrepôr-se ao que realmente é: um bom compositor. O autor de Transa, Jóia, Bicho, Muito, adoro todos. Até flertei com Araça Azul.

Sim, é essa persona afetada e modernosa que toma o lugar de qualquer resquício de respeitabilidade que poderia haver neste cosmopolita carlista global, o especialista de tudo, sem domínio evidente de nada, parvo como escritor, e com boa parte da obra musical digna da lata do lixo.

Superou os recordes com a fala rançosa sobre o Lula. Nem se Lula fosse, aliás, o que este hierofante do saber-tudo diz ser, seria digno partir com um comentário daqueles.

"Todo mundo era poeta, todo mundo era atleta, todo mundo era tudo". Caetano® é tudo mesmo. Olhe mais perto e veja que não tem nada. É o desespero do cachorro morto que, carente que está de mídia vai atacando quem tem de sobra.

E segue Caê®, se jogando ano a ano nos braços da Globo - mas ao contrário de Roberto Carlos, que não solta essas asneiras e se contenta com o repertório de sempre.

Parem de implicar com o Caezinho®: se não há palhaços, quero meu ingresso deste circo de volta!



22hs02

sábado, 7 de novembro de 2009

Singularidades de uma Mostra desvairada

Manoel de Oliveira e a trupe de "Singularidades".

Pra não dizer que não falei das flores, aproveitei a portentosa estadia da Ziza - a Agnès Varda de São José - na desvairadíssima Paulicéia para ir curtir um pouco a Mostra.

Naturalmente pude aproveitar fatores como: a simpatia humanamente inviável da Ziza, sempre remando contra a corrente de meu sinistro mau-humor e minha sovinice satânica; os 20 reais que achei no chão; um ingresso que ganhei, graças a Ziza; e o colapso do sistema de melanômetros (e dos miserômetros também) dos cinesampas, o que permitiu minha periférica presença.

Foram 3 atos nessa ópera, cada qual com sua curiosa especificidade.

O primeiro deles foi "O jantar", filme passado de Ettore Scola. Já conhecia e apreciava muito o filme, e foi um prazer imenso revê-lo, sentir sua pulsão e sua cadência, nas quatro paredes sempre tratadas com excesso de carinho e inteligência por Scola. Destaque para Vittorio Gassman como o "maestro" de toda a folia.

Seguindo o roteiro, fomos ver uma coisa "nova e badalada". E aí, o melhor momento de todos, pra mim ao menos: "Singularidades de uma rapariga loura", saído da fornalha do centenário Manoel de Oliveira. Com 100 anos de vida, soa incrível alguém ainda dirigir um longa. Fazê-lo então com maestria, encanto, doçura e leveza, é um legítimo milagre.

Pois bem, operou-se o milagre: Manoel de Oliveira, o taumaturgo, não sei se mais lento ou não, mas com seu estilo característico, realizou um belo trabalho sobre o conto de mesmo nome de Eça de Queiróz - uma fábula sobre o quanto podemos nos iludir, nessa vida de malucos vai-e-vens, e o quanto as aparências enganam.

Leve e direto, com uma hora de duração, arrancou de mim e Ziza ótimas risadas, sobretudo na relação do mancebo Macário e seu titio, figura não exactamente simpática.

E pra fechar, um filme desconhecido de um autor recente, o "grosso" da mostra. Trata-se de "No vale profundo", obra assinada pelo japonês Atsushi Funahasui (espero ter acertado o nome do varão), focada na reconstrução de um pagode de cinco andares - uma bonita reflexão sobre o valor da memória, sobre o papel do cinema.

Infelizmente não deu pra ver mais coisas, dada a conjunção de factores tais como: tempo curto, muito "tiro no escuro", ingressos caríssimos, melanômetros e miserômetros por aí (também há os merdunchômetros no Frei Caneca) etc. Em todo caso, valeu pelo pouco visto, e pela presença inteligente e divertida da amiga Ziza.

(O trailer abaixo não é o de X-Men Origins. Aliás, é de se prestar atenção na bela voz de Leonor Silveira, que surge ao fundo.)



03hs13m