terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Geração Boris Casoy

Uma brincadeirinha inocente, engraçada e integradora

Hoje li, estupefato, que um rapaz em Fernandópolis foi vítima de trote violento. No entanto, o que me deixou surpreso e incomodado não foi o teor da violência: foi a constatação da continuidade dessa prática e da carência de contestação por parte da sociedade.

As percepções em geral sobre o trote são de que: trata-se de um "ritual"; é uma forma de "integração"; se o "bicho" não cede, vira um "bicho chato", talvez excluído.

Mentiras no mínimo boçais. O trote é uma externalização de violência com seus contornos mais covardes: o novato, perdido e sem conhecer ninguém, está sempre em posição inferior; e o pior: a aceitação social disso deixa margem pra qualquer tipo de ação contra o calouro.

Ou seja: "ter o direiro" de pintar o rosto do rapaz e daí avançar pra agressão tem diferença mínima. E a tendência, sabemos qual é. O trote enquanto prática, deveria ser coisa de polícia, em qualquer modalidade. Reforçando: TODO TROTE É VIOLENTO; trote não integra, o que integra são as práticas cotidianas de alteridade e amizade.

Reforçando: se há permissão para um mínimo cutucão que seja, não faltaram os que irão "um pouco além" no cutucão. No caso do garoto de Fernandópolis, foi humilhado, estapeado no rosto, obrigado a fumar um maço de cigarro inteiro e beber álcool combustível.

O drama é o mesmo todo ano, não faltando casos gravíssimos de espancamento, abuso com conotações sexuais, violência psicológica (Ok, essa é vista como "normal"). E casos de assassinato.

Destes, o mais famoso deve ser do garoto que morreu afogado após entrar na medicina da Usp, cerca de dez anos atrás.

De lá pra cá não mudou uma vírgula: todo o ano o mesmo ritual da cafestada mormente abastada e "sobrenomeada" aparece apenas para preencher um dia do noticiário e cair no esquecimento.

Fenômenos como o da rapariga aviltada na Uniban (e pouco importa aqui se, paradoxalmente, a guria veio a lucrar em "imagem", humilhada por dúzias de pessoas ancoradas no refúgio de um protomoralismo reacionário - com a covardia dos que apredejam em massa - dialogam bem com a situação.

É a geração Boris Casoy - reacionária, violenta, sem sensibilidade com o próximo e aversa a qualquer noção de integração.

É a geração dos garotos que ateam fogo em morador de rua; que se deliciam com as brincadeiras fascistóides de Pânico, CQC, Marcos Mion e por aí vai; dos ratos da Uniban; do próprio Boris Casoy, antigo militante do CCC, cuja fala recente para com dois garis só reforça como setores da sociedade pensam.

Aliás, o vínculo político no caso é algo para se pensar. Meu pai conta que, nos tempos da FAAP, quem praticava o trote violento era a molecada dos "CCC" da época, de extrema-direita.

É uma boa explicação para entender o que houve com o rapaz de Fernandópolis. E com os garotos queimados em trilhos de trem em Botucatu; com os meninos e meninas rolando em esterco em Piracicaba; com os garotos embriagados e jogados em piscinas (se não sabem nadar, que se danem!).

"Tudo em nome da integração e recepção dos calouros"...



23hs30m

sábado, 30 de janeiro de 2010

Cemitério dos Livros

Em 2008, enquanto curtia minha estadia de um semestre em Belo Horizonte, participei de um concurso de contos, de uma universidade do Paraná. Não deu em nada. Mas ficou essa historinha abaixo, que não deve ser de todo antipática. Mantive como o escrevi, com suas precisas imprecisões.

Cemitério dos Livros

por André G. de Paula Eduardo

Hegel e Schopenhauer se atritam e se apertam, não dão as mãos. O espaço é mínimo nessa edícula úmida, e ambos dividem justamente a parte mais obscura. Será essa obscuridade uma conseqüência de suas idéias? Schopenhauer diz que não: afinal, ele próprio não dedicou tempo demais para demonstrar o quão claro é seu estilo comparado a um Hegel, comparado a um Schelling? O autor de “Parerga e paralipomena” argumenta, é teimoso, chega a ameaçar o pobre Hegel. Diz que vai derrubá-lo da estante. “Eu o derrubei da filosofia por muito tempo”, afirma o solitário volume da “Fenomenologia do Espírito”. “E ambos estamos velhos, você muito mais, embora eu tenha sido publicado primeiro”.

Os dois velhos briguentos ocupam um recife formado pelas obras de Plutarco, as ilustres, sebosas e amarelas edições que um tal de Amyot vertera ao português. Há muito ninguém os lê, Plutarco com seus César, Catão, Heliogábalo ou Cipião. Vidas ilustres em páginas que sequer foram rasgadas, aquelas páginas que antigamente passávamos a régua como quem corta o peito com uma espada. Ao fundo da confusão histórica, algum volume avermelhado de Heródoto, esse mais um solitário velho, um tanto sisudo e que, disseram alguns, anda já a conversar com as traças, sinal claro de senilidade.

Nas duas estantes que compõem a biblioteca, cerca de trezentos volumes; os velhos, os envelhecidos, os que esperam pela sepultura e os que se sentem numa tumba, mas sem lápide. Para alguns, a história não dará razão. Outros tiveram êxito, talvez uma edição em espanhol de um outrora famoso Spencer, que se dizia amigo de “A origem das espécies”. Porém, o livro de Darwin continua a fazer sucesso, e nessa algazarra é um dos menos mal-tratados. Já seu compatriota tem páginas rasgadas, sobram traças. Spencer retruca, protesta e se compara a Prometeu, grita dolorosamente que suas tripas é que estão sendo arrancadas por abutres, e tudo porque trouxe luz à humanidade. Sófocles ri-se num canto, já que seu “Prometeu acorrentado” também têm páginas a menos. “Meu herói sou eu mesmo”. Ora, como pudera descer tanto, este Sófocles nunca foi lido! “Família maldita me adotou”, resmunga. E nenhum outro resmungar será tão solitário e inútil quanto este.

Voltaire está num canto, com o perdão de outra metonímia. São as “Cartas inglesas” e também “Candide”. Este é pequeno, discreto, parece sufocado. O outro passara por privações certamente menores que as do homônimo herói do livro. A capa surge machucada, aleijada mesmo, e parte do frontispício está à mostra. E as “Cartas”, embora o terceiro livro mais bem posicionado, estão mutiladas. Mais magras que Voltaire, faltam-lhe páginas, faltam-lhe as pernas, faltam-lhe ossos, boa parte do sangue se esvaiu. Suas colegas “Cartas portuguesas” parecem mais em forma. O livrinho de Mariana Alcoforado tornou-se uma espécie de “queridinho” de algum morador da casa, a casa na qual a edícula se encontra, isolada e afastada do movimento do mundo. Mas é claro, sempre surge algum intrometido a quebrar as regras de silêncio e cenobitismo, para protesto do rabugento H.L. Mencken, um dos mais faladores e que jura que ainda não nasceu um leitor para ele. Pode ser verdade: seu livro, de textos de sucesso da década de 1920, nunca foi lido. E Mariana Alcoforado já foi vez ou outra vítima de assédio de uma adolescente da casa, talvez à espera do “príncipe encantado”, dizem os invejosos e velhacos vizinhos.

Mas as lusas cartas são, é evidente, uma exceção. Há um grande temor pelos livros que desapareceram nos últimos anos. Onde foi parar “O livro das Canções”, de Heine? Mencken diz que foi queimado, como eram queimados na Alemanha nazista e culpa a maldição que Heine teria se pregado ao dizer que começamos queimando livros e terminamos queimando homens. Seu colega Goethe, mais tranqüilo, afirma que ele está num país distante, foi levado para um local de troca, e nunca mais foi visto. Outro saxão, Hölderlin, diz que o livro afogou-se numa lagoa. Embora silencioso Hölderlin ainda surpreende a todos com juízos sem juízo algum e com palavras poéticas, e se os homens não o lêem, os livros ao menos têm por ele certo carinho, aquele carinho por um parente doce e enfermo.

Na verdade, Heine estava ainda entre eles. Paralítico, deprimido, louco, colocado na horizontal e pisoteado por pelo menos uns oito livros, que sentiam pisar em algo macio. Heine, o judeu, não falava. Não queria falar. Achava que já havia deixado sua mensagem ao mundo.

Embora conflitantes entre si, os livros parecem unir-se numa espécie de resignação na qual nem há mais espaço para a esperança. Para alguns é o “Purgatório de Dante”. Mas “A Divina Comédia” não está ali. Shelley perguntou por ela, um dia. “Está morta”, respondeu Nietzsche, misterioso. “Depois de Deus foi Dante que morreu?”, zombou o romântico inglês. Mas de fato, há muito não a viam, parece ter sido levado anos antes junto com dois volumes de Homero. “Mortos agora somos nós”, zumbiu alguém sinistramente, ao que parece o azul-desbotado Allan Poe.

Na minúscula edícula, os maiores embates do pensamento travados pelas próprias paginas, que se sentem tão ou mais importantes quanto seus autores. Afinal, aprenderam deles o conhecimento que deveriam levar ao mundo. Porém, no cemitério dos livros cada capa é um túmulo e dentro dele apodrece um cadáver.

Inúmeras vezes o cemitério foi aviltado; o túmulo das “Cartas inglesas”, violado mais de uma vez. Seu corpo apodrecido aparece num mórbido e triste estado, fétido mesmo, distante da grandeza que almejara ter em vida. Corpos, por toda parte há corpos mutilados. “Revolução”, prega “Das Kapital”. “Sim, trocar homens por porcos”, zomba o volume de Orwell. A revolução está sempre em curso nessa edícula úmida: livros vão e vêem, a maioria se empilha e apodrece, suas idéias tornam-se comida para as traças.

As traças gostam de Dostoievski. O russo é o preferido delas. Diz-se outro “Prometeu”, mas sente pagar pelos pecados de Raskholnikov. E nenhuma traça parece querer um volume esquecido, alijado das conversas e menosprezado de Paulo Coelho. Aliás, nem “Todos os nomes”, de Saramago, conversa com o brasileiro. As traças gostam dos russos. Os russos estão às traças. “Melhor que os vermes”, diz um Machado de Assis, deve ser o “Brás Cubas”. Ao contrário de todos, Thoreau gosta dos bichos. E os morcegos gostam de “Walden”. E de Emerson.

Dizem que Erasmo enlouqueceu. Uma edição feia; porém respira ainda a alegria de outrora. Alguns afirmam que nosso holandês tem transtorno bipolar (ao menos o cruel Swift teria dito isso, fofocou o esquisito Fernando Pessoa). O fato é que há muito ninguém dá atenção a ele, e seu amigo Morus perdeu a capa e está desfigurado, irreconhecível, sente-se alguém sem cabeça. Nem o “Hamlet” sente-se assim. Mas os volumes de Shakespeare, sempre abraçados e suados na mesma coleção verde esmeralda, estão pra lá de metafísicos e sem capacidade de sorrir. O irmão mais velho da família é “Noite de Reis”, uma edição da década de 1930. Nunca foi lido, mas é um velho forte, bem conservado, certamente em virtude da proteção de “Coriolano” e “Júlio César”.

Maquiavel foi maquiavélico. “O príncipe” foi confundido certa vez, talvez pela adolescente das “Cartas portuguesas”, com “O pequeno príncipe” de Saint-Exupéry. A menina esqueceu o italiano do lado do infante livrinho, numa posição mais arejada e recebendo um pouco de sol, longe dos bolores e armadilhas do tempo. Mas o tempo é um grande escultor, e traiçoeiro, tenta ensinar Marguerite Yourcenar.

Wilde gosta de Rimbaud. Mas Agostinho detesta Wilde e têm fé em “Iluminações” do jovenzinho francês. “Sodomita!”, diz aos berros. O dândi britânico parece não se importar. E de fato, o volume de poemas de Rimbaud é belo. Tão belo quanto Dorian Gray. Agostinho diz orar pelas “almas perdidas”: Schopenhauer, Verlaine, Byron são algumas. Convida-os à cidade de Deus. Mas a única cidade a que pode aspirar está nessa estante mofada. Todo mofo é igual, todo amarelo é igual e será todo livro papel quando esquecido? “Hamlet” afirma só haver caveiras ali. Na verdade engana-se, não há caveiras, mas há cadáveres que apodrecem vivos. São mortos-vivos, ou melhor: vivos-mortos. Têm o sentimento do mundo em si e nenhuma perna para fugir. Raspam-se uns nos outros como se mortos num campo de extermínio. Convivem com chagas incuráveis e nenhum dono de sebo aparece para roubar-lhes da solidão das idéias, a mais cruel de todas. Verdes, vermelhos, azuis. São cores pálidas, uns têm capa, outros estão morrendo. Teorias que nasceram mortas. E o prelo pariu os livros com idéias revolucionárias, idéias agora confinadas em páginas mortas, em letras mortas, numa cela desconhecida.

Mas algumas teorias têm alterado a face do planeta, alterado a história e o pensamento, e por que parecem esquecidas como se o mundo não mais precisasse delas, como prostitutas das três da matina que cobram barato e desaparecem? E ainda que os debates persistam acalorados, os livros não cessam de lembrar que têm seu formato em virtude das mãos e olhos dos leitores. Que leitores? Leopardi (ou os “Cantos”) diz que foi menosprezado por uma “velhota fedorenta”. “Estou bem sem leitores”, afirma o melancólico. Mas a solidão permanece como um ácido e nem Shelley, nem Baudelaire, nem Swinburne possuem láudano para esquecer da vida e da morte em vida. O pouco de álcool que havia ali um livrinho de Poe bebeu.

Meu Deus, que lugar pavoroso seria esse? Schopenhauer trouxe suas teses, afirmou que a Vontade implicava numa vida má, em existência cerceada, e que os livros não fugiam a essa lógica. Mandaram-lhe calar a boca, como de costume.

Ninguém ouvia Paulo Coelho. Sim, Paulo Coelho. “Idiota, pedante”. “E mentiroso”, concluía um Jorge Luis Borges, que afirmava que a capa do best-seller era horrível e afetada. Porém um dia Tolstoi indagou-lhe sobre sua história. “Por que o lazarento barbudo não se matou antes de pirar”, resmungou Flaubert. O maltrapilho volume de Turgueniev quase bate no nervoso francês e dirige-se a Tolstoi: “prossiga, Liev”. “Sr. Paulo, seu volume parece novo, de onde veio?” “Da Biblioteca dos Livros Encantados”, respondeu o “Sr. Auto-ajuda”, como o chamavam. “Onde fica?”, questionou o Tolstoi. “Vocês não vão acreditar”, e fez suspense. “Responde, seu palhaço”, e a voz partiu de um irado Thomas Mann. “Onde fica? Ora, em qualquer lugar que não aqui”, e calou-se no seu canto o “Sr. Auto-ajuda”, e nada mais disse.

Passaram-se semanas desde a conversa. Eis que chegou um forasteiro. Capa azul e branca, novo, “O Náufrago”, de Thomas Berhardt. “Não faz muito que cheguei aqui”, e começou sua história. “Estava em viagem, numa bolsa, aqui por perto, não sei bem onde, e fui parar aqui.” “Um naufrágio?”, indagou alguém. “Creio que um maremoto me trouxe até aqui. Me disseram que não mais seria lido. Que eu fazia apologia ao suicídio. Que já estava antiquado. E olha que nasci numa imprensa há dois anos, vivi numa biblioteca grande, fui parar num sebo e cá estou”.

Todos sentiram um pouco da dor do viajante, ou do mais novo “morto” de um cemitério de idéias. Paulo Coelho ergueu-lhe a voz: “Conhece a Biblioteca dos Livros Encantados?” “Cale a boca, idiota”, exigiu Maiakovski. “Sr. Náufrago, desculpe nosso amigo, um tanto senil e debilóide”. Mas o novato ficou atiçado. “O que vem a ser isso? Que biblioteca é essa?” “Fica em algum lugar que não é aqui”, disse com ares de profundidade Paulo Coelho. “Enquanto vinha pra cá, nas mãos de uma senhora gorda e enrugada, notei que passava por vários livros, e muitos reconheci: um Sade, um Kant, talvez uma Duras, não sei bem. Maupassant estava lá”. “Maupassant?”, fez o incrédulo Flaubert. “Sim, e outros, em melhor estado que vocês. Amigos, parecem todos uns mendigos, o que houve aqui?” “Estamos aqui há muito tempo e por muito tempo ficaremos”, afirmou Tostói. “Aqui somos cadáveres, percebe?”.

Porém Berhardt não assentiu. “Ora, julgam-se mortos, meus amigos?” “Que outra morte para um livro que não ser lido”, disse um Rousseau com voz fanha. “Só o depois-de-amanhã me pertence, eu nasci póstumo”, retrucou Nietzsche. Mas nem mesmo Nietzsche parecia mais inovador. “Pois então terá de sobreviver à morte física, também. Estamos indo para o crematório – finalizou Berhardt. A velha gorda diz que não estamos em seu gosto e seremos reduzidos à cinza”.

“Crematório?”, e a pergunta era geral. “Então Heine tinha razão e o próximo passo será ver pessoas pegando fogo!” “Iremos morrer”, balbuciou um antigo Dickens. “Já estamos mortos”, disse Dostoievski.

Mortos. E agora mais mortos que os mortos. “Só o depois-de-amanhã me pertence”. Nietzsche ainda aguardava pelo Eterno Retorno. Uns dias depois, nossos heróis e anti-heróis caminhavam sem volta para a tumba. Os loucos, os sãos, os feios e os belos, os bêbados e os jovens. Berhardt estava certo em suas profecias. Antes, Heine estava certo. O que restaria de um “Noite de Reis” que nunca foi sequer aberto? De um Spencer que apodreceu e nunca pode apelar para uma “condicional?” Maiakovski, London, esses não tinham medo, naturalmente. “As cinzas ninguém profanará. Se o fizerem, terão uma bela tosse”, gracejou Voltaire. “Voltaire é um bobo alegre”, disse um merencório Hegel. “A propósito, meu nome verdadeiro é François-Marie Arouet”, sublinhou o iluminista franco. Que diferença isso faria? Alguém tem nome quando morre? “A pior morte é a morte em vida”, veio de um tal de Lima Barreto, com o sugestivo título de “O cemitério dos vivos”.

Dias depois, estavam todos queimados, servindo de combustível numa lareira. A dona da edícula, que era dona de uma imensa e inútil biblioteca, tinha uma bela propriedade. Era verão. Calor. Mas a lareira era romântica. Havia lenha. Mas a velha corpulenta gostava de ver papel queimando. E fazia questão de ler cada título antes de abastecer o fogo. Strindberg, Poe, Kierkegaard, Rimbaud, todos títulos que recebera do falecido e ranhento marido. Ela odiava o marido. O marido a desprezava. Havia muito mais livros, é claro, na tal da “Biblioteca dos Livros Encantados” a que o agora tostado Paulo Coelho se referia. Quem sabe um dia um romance a distraísse, ou algum amigo lhe tomasse de empréstimo um filósofo, ou sua filha tornasse a se apaixonar e buscar algo como “Cartas Portuguesas”.

E a filha ficou bastante entristecida quando chegou em casa e soube do repentino gesto da mãe, a qual qualificou de nazista. “Onde está o livrinho da Alcoforado?”, questionou quase aos berros. “Nazista!” A mãe, sebenta, respondeu com ar de superioridade. Não, minha filha, aprenda antes de falar. Isso não é nazismo”. “Os nazistas faziam isso, mãe!” E a senhora retirou-se pesadamente para o quarto, e voltou com um livro grosso e bonito nas mãos, e falou: “É certo que faziam isso na Alemanha, Eva. Mas não me lembro de haver nada nesse livro sobre isso, se queimar ou não livros é nazismo. Não me lembro. Faço mesmo por alguma espécie de prazer, e afinal, já usei os livros, a maioria não vale nada mesmo.”

O volume nas mãos gordas da senhora excêntrica chamava-se “Minha luta.” Uma edição da década de 1950, bonita mesmo, em capa dura avermelhada e com uma suástica nazista no centro. O livro sorria ao ver tantos colegas em chamas. Sabia que nunca estaria entre eles. “Isso é nazismo, livros ao fogo? Ora essa, Eva. Se quiser algum especifico, eu te compro”. E colocou o seu “Mein kampf” sobre a mesa, acendeu um cigarro, e jogou de uma vez as obras de Shakespeare e Marx, dessa vez sem olhar o que jogava. E ao atirar o esquecido e resignado “Livro das Canções”, de Heine, soltou um grito.

“Que foi, mamãe?”

“Queimei meus dedos. Maldito livro!”

Heine pegava fogo, mas sorria. Era um sorriso convicto de um vencedor à beira da morte. “Primeiro livros, depois homens.” Aquele fogo talvez fosse o de Prometeu, a pira roubada dos deuses para trazer sabedoria a uma atormentada Humanidade.

(Belo Horizonte, set. 2008)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Loucura questiona Razão em clássico de Milós Forman


Estava vendo, depois de um bom tempo, "Um estranho no ninho", filme de Milós Forman agraciado com o Oscar e que já abriu amplo debate sobre a questão manicomial.

É um daques filmes que se ergue forte com vigas aparentemente tortas. A começar pelo anti-herói vivido por Jack Nicholson, em uma de suas grandes atuações.

Randall McMurphy é um espertalhão que, para não ser preso, faz-se de louco. Mas o que o tornará um personagem rico são justamente sua ações enquanto pretenso louco. Estamos num internato regido pela influência de uma enfermeira despótica, pra dizer o mínimo. Embora a insanidade seja a marca de todos os internos, é a razão do medo que governa o destino de todos naquele espaço.

E Randall, por não ser exatamente louco e portanto menos vulnerável, é o instrumento para questionar essa lógica. Distinguindo-se por seus atos de provocação, mostra que, se quiser, pode ser mais maluco que qualquer um ali dentro.

É assim na famosa cena da fuga, quando leva a trupe lunática para pescar. E na antológica passagem final, com a festa trágica que promove em plena clínica. Essa "loucura alternativa" é sua capacidade de transgressão, ao passo que, para os demais, a loucura se limitaria aos transtornos da mente.

Forman, com o perdão do trocadilho, pode ser formal demais em alguns momentos. Mas sabe deixar as cenas fluírem com graça, e confia no talento de seus atores - como Nicholson e os demais "malucos" (como o jovem e simpático Danny DeVitto).

"Um estranho no ninho" tem mesmo a cara de filme que ganha o Oscar - mas pertence à banda boa, abaixo de "Os imperdoáveis" ou "O poderoso chefão", em frequência próxima a de "Rain Main", "Titanic", "A lista de Schlinder", coisas que, sem serem rebeldes demais, colocam o dedo em feridas, ainda que sem pressionar.

Aliás, se falarmos da questão dos manicômios, já há outro filme mais atual e mais pesado: "A troca", de Clint Eastwood", ambientado numa cidade sombria na qual crianças são roubadas e mortas, pessoas executadas sem julgamento, polícia e política são corruptas. No entanto, a palavra final do filme, como bem lembrou o professor Jorge Coli, é "Esperança".

Pra ilustrar, o bonito tema de "A troca", composto pelo próprio Clint Eastwood, com o costumeiro arranjo de Lennie Niehaus.



17hs19m

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre a tentativa de leitura de um filme - 1

Contra quem o Neo está lutando?

Quando o assunto é tentar compreender um filme, frequentemente confundimos os propósitos do filme com aquilo que queremos que o filme seja.

E mais frequentemente ainda julgamos o filme bom ou ruim devido a nossas leituras pessoais. Não tem problema nenhum nisso – não é raro que eu perceba como fui personalista e sentencioso ao tentar compreender uma obra cinematográfica.

Uma obra que não foi feita sob encomenda pra mim, e tento levar meus olhos até uma compreensão não ideológica e mais global.

Certamente muitos dos fãs de Che Guevara gostaram de “Diários de motocicleta”, de Walter Salles, ou do “Che” de Steven Soderbergh porque .... ora, porque ali estava seu ídolo político.

Conheço um cara homofóbico que acha “O segredo de Brokeback mountain” uma porcaria. O mesmo acha “Philadephia” filme ruim. Pessoalmente, gosto dos dois filmes. A lógica do homofóbico é: são filmes sobre gays, eu odeio gays, acho que são coisa do demônio e logo são filmes ruins”. O fato de eu gostar destes filmes fará de mim um gay?

Ou o fato de eu assumir que gosto de “O nascimento de uma nação” denuncia que sou racista? E de me declarar fã de Leni Riefenstahl explica que sou nazista?

Cinema não é, a priori, feito pra agradar nosso umbigo. Mas é feito pra agradar, sim senhor. É todo ideologia, pode ser esquerda ou direita, pode ser consumista, pode ser o que quisermos.

E por gostar de filmes antes de preconceitos (e tenho aos montes, certamente), tento me esquivar um pouco disso e perceber seus aspectos para além do temático - sua beleza, as formas, os movimentos, o roteiro, as personagens, a atualidade, o que conseguir ver - tento muito e não sei se consigo tanto.

Ao mesmo tempo, também tenho identificações muito pessoais e fortes.

Por exemplo, não tenho dúvida de que “O espelho” de Tarkovski é um grande filme. E acho “Ladyhawke”, fábula de Richard Donner, um bom filme, muito bonito. São tentativas de juízos amplos, não o mero depositário de meus conceitos e pré-conceitos. De um ponto de vista mais pessoal, os dois filmes são, para mim, coisas apaixonantes – ainda que imensamente diferentes.

São apaixonantes pra mim porque fazem parte da minha história e falam de coisas que tocam meu coração.

Nunca, nunca mesmo vou recriminar alguém por gostar de “Velozes e furiosos”. Alguém tem todo o direito. Apenas não me peça pra tentar dizer que isso tem alguma qualidade. Sim, alguém pode me convencer de códigos secretos no filme, ou de que ele é cheio de semiótica, que as corridas são "muito loucas". Ótimo. Posso respeitar o ponto de vista. O filme é outra história.

Talvez já tenha me perdido, mas vou continuar: olhar um filme com cargas emotivas, com o momento pessoal atual, crenças religiosas e morais, preconceitos ideológicos, tudo isso conduz menos a interpretações acerca do filme e mais à uma leitura com base naquilo que desejamos ver no filme.

Podemos sim enxergar tudo isso no filme. Seria demais autoritário pautar a qualidade dele porque ele fala de nossa escolha, de nosso partido político, de nossa maneira de pensar.

E igualmente autoritário tentar fechar esse canal - se um lutador de boxe gosta de "Touro indomável" apenas por causa da luta, tudo bem. Mas se o fato de ter boas lutas fosse critério artístico, isso excluiria todos os não lutadores...

Ok, lá fui eu, com minhas pretensões criticas, dizer que o filme do Lula é meia boca. Bom, eu tentei ler o filme. Apenas isso. Os fãs do Lula podem me crucificar, mas que entendam que não estou falando do Lula (personagem pelo qual tenho a maior simpatia). Estou falando do filme.

E quando falei que o primeiro “Rambo” não é tão mau assim, não estava a serviço do gorilismo político internacional. Um filme é um filme. Um filme não vai além de um filme. Era o que eu queria dizer – salientar essa singularidade como forma de não me perder na minha própria moralidade.

Em tempos mais godardianos (mas longe de Dziga Vertov), tinha eu um problema seriíssimo com o cinemão americano, com exceção aos clássicos como Ford e Welles e coisas como Scorsese e Robert Altman.

Spielberg eu não engolia de jeito nenhum. Exagerava no unilateralismo das opiniões, via mesmo “Parque dos dinossauros” como anticinema e tentava encontrar uma função de crítica permanente da linguagem, ainda que não soubesse direito pra que isso serviria.

Imagina que coisa horrorosa tentar entender “Outubro” ou “A greve” de Eisenstein com argumentos “liberais”, dizer que o filme é mera babação do estado soviético com mentiras históricas etc.

E a montagem de Eisenstein, a beleza e rigor nos planos, o dramático impecável, a grandeza das cenas?

Imagina que horror insistir que Hollywood = "imperialismo yanque", ou igual a ideologia “reacionária” (em geral os delatores são mais reacionários, na outra ponta).

Um professor meu lá da Unesp adora passar “O que é isso, companheiro”. Do ponto de vista didático funciona, acho. Eu não tenho nada a ver com isso, ponto.

Algum amigo ecologista adora o documentário do Al Gore. Eu tenho toda a simpatia pela causa e pela figura de Al Gore – e também tenho simpatia pelo seu filme, mas não é só pelo conteúdo informacional dele. Creio que a estratégia do documentarista foi bem sucedida.

Outro dia volto a tentar escrever sobre. É isso aí.

17hs05m

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Fórmula humanizadora garante sucesso de “House”


Passei alguns dias na companhia das temporadas 2 e 3 de “House”. Alguns episódios ainda não tinha visto, e pude acompanhá-los em seqüência.

Todos conhecemos o Dr. Gregory House, e frequentemente o definimos: arrogante, chato, maluco, antiético. Talvez o mais interessante é pensar que, para o próprio House, tudo isso é uma máscara para finalidades mais altas.

Sim, todo o “House” é feito de máscaras. Tudo vem acompanhado de uma discussão ética, mas em cada episódio, como cada caso e e para paciente, existe um esforço para destrinchá-la e colocá-la em perspectiva. “House” faz sucesso porque se dedica a combater clichês – e todos sabemos que qualquer seriado só vive de clichês.

Mas a fórmula de êxito da série não para por aí. O doutor House é, de fato, um ser insuportável – mas para os demais personagens – Cuddy, Foreman, Chase, Cameron e o amigo Wilson, além de Kutner, Thirteen e Taub.

Para o espectador, House é engraçado, absurdamente inteligente, e dono de um carisma bastante singular. Gregory House é encantador porque é excessivamente humano – não apenas em suas freqüentes demonstrações de bondade (para além de suas máscaras), mas porque é alguém que sofre e se interessa, a sua maneira, pelo sofrimento do outro.

A palavra “sofrimento” acompanha e permeia todo o seriado. Doenças raras, famílias em desespero, choques sociais, questões raciais, câncer, mortes, drogas, pacientes traumatizados.

“House” faz sucesso porque não banaliza sua humanidade – não se faz novelinha das 8 – e jamais deixa de abdicar dela própria. De alguma maneira, “House” vive do sofrimento, mas porque a vida é sofrimento, que irá negá-lo?

E do mesmo modo, não deixamos de grudar nossos olhos à tela porque “House” frequentemente fala muito de nós próprios, sem se prender na superfície habitual das coisas.

16hs34m

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Eric Rohmer (1920-2010)

Ao fundo, Eric Rohmer partindo...

O que eu diria de Eric Rohmer? Apenas que tenho uma vida toda pessoal com ele.

É o cineasta que mais vi no cinema - não tenho certeza, mas creio que cerca de vinte filmes do diretor, todos no cinema.

Desde O signo do leão e A carreira de Suzanne, quando ainda Rohmer, um dos "eleitos" de Andre Bazin, começava sua vida como cineasta de modos simples, de estudo da palavra e dos gestos meticulosos.

Rohmer conseguia repetir a si mesmo sem nunca ser banal - delicado e engraçado, fazia um cinema leve, despretencioso, e segundo ele mesmo, comercial.

Seu cinema cansou de suavizar com alguma beleza o cotidiano de muita gente, não tenho a menor dúvida.

Depois fez obras-primas como A colecionadora e Minha noite com ela. Foi tanto Rohmer, que frequentemente confundo um ou outro em minha mente.

Por exemplo: lembro perfeitamente ter visto Um casamento perfeito. Mas confundo com Quatro aventuras de Renette e Mirabelle, com Noites de Lua Cheia...

O raio verde é uma das obras mais bonitas do Cinema e um dos meus filmes favoritos.

Sobre os Contos das quatro estações, tenho boas recordações, algumas bem pessoais.

E A mulher do aviador (que muito me fez rir), A marquesa D´O, Amores à tarde, vários que vi no Top Cine ou no Cine Segall. Sem falar em A inglesa e o duque, Rohmer atípico, de roupagem ousada, mas sem perder o foco no equilíbrio e nos diálogos.

Uma vez confidenciei a um amigo: "não existe cinema melhor pra se ver com uma garota inteligente do que Eric Rohmer".

Ainda não mudei uma vírgula dessa opinião.

Obrigado por tudo!



22hs09m

sábado, 9 de janeiro de 2010

Resnais


por André Setaro

"Alain Resnais, gênio do cinema, em foto do último festival de Cannes, ao lado de um de seus atores preferidos, André Dussolier. Quando elaborei a lista dos melhores do ano para o Terra Magazine, que foi publicada na terça passada, ainda não tinha visto As ervas daninhas (Les herbes folles). Faço aqui uma retificação. Les herbes folles é, disparado e sem qualquer sombra de hesitação, o melhor filme de 2009. Impressionante que um realizador (1922), que vai fazer 88 anos neste 2010, ainda tenha fôlego para inventar no cinema. Considero Resnais o maior cineasta vivo, um dos últimos moicanos do grande cinema. Hiroshima, mon amour, seu primeiro longa (1959), tramatizou, pela sua beleza, pelo seu assombro, toda uma geração e, logo em seguida, 1961, estabelecia o espetáculo puro, o puro cinema em O ano passado em Marienbad (L'année derrière en Marienbad), que deixou de queixo caído boa parte da crítica. E vejam que elegância: todo de preto, apenas com a camisa vermelha, e óculos escuros, bem pretos. Sua figura é a figura da própria mise-en-scène. Alain Resnais é um inventor de fórmulas, um cineasta que eleva o cinema à categorian de obra de arte. Como bem atesta este recente Les herbes folles."
(...)

(Na íntegra no blogue do André Setaro).

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