Em 2008, enquanto curtia minha estadia de um semestre em Belo Horizonte, participei de um concurso de contos, de uma universidade do Paraná. Não deu em nada. Mas ficou essa historinha abaixo, que não deve ser de todo antipática. Mantive como o escrevi, com suas precisas imprecisões.
Cemitério dos Livros
por André G. de Paula Eduardo
Hegel e Schopenhauer se atritam e se apertam, não dão as mãos. O espaço é mínimo nessa edícula úmida, e ambos dividem justamente a parte mais obscura. Será essa obscuridade uma conseqüência de suas idéias? Schopenhauer diz que não: afinal, ele próprio não dedicou tempo demais para demonstrar o quão claro é seu estilo comparado a um Hegel, comparado a um Schelling? O autor de “Parerga e paralipomena” argumenta, é teimoso, chega a ameaçar o pobre Hegel. Diz que vai derrubá-lo da estante. “Eu o derrubei da filosofia por muito tempo”, afirma o solitário volume da “Fenomenologia do Espírito”. “E ambos estamos velhos, você muito mais, embora eu tenha sido publicado primeiro”.
Os dois velhos briguentos ocupam um recife formado pelas obras de Plutarco, as ilustres, sebosas e amarelas edições que um tal de Amyot vertera ao português. Há muito ninguém os lê, Plutarco com seus César, Catão, Heliogábalo ou Cipião. Vidas ilustres em páginas que sequer foram rasgadas, aquelas páginas que antigamente passávamos a régua como quem corta o peito com uma espada. Ao fundo da confusão histórica, algum volume avermelhado de Heródoto, esse mais um solitário velho, um tanto sisudo e que, disseram alguns, anda já a conversar com as traças, sinal claro de senilidade.
Nas duas estantes que compõem a biblioteca, cerca de trezentos volumes; os velhos, os envelhecidos, os que esperam pela sepultura e os que se sentem numa tumba, mas sem lápide. Para alguns, a história não dará razão. Outros tiveram êxito, talvez uma edição em espanhol de um outrora famoso Spencer, que se dizia amigo de “A origem das espécies”. Porém, o livro de Darwin continua a fazer sucesso, e nessa algazarra é um dos menos mal-tratados. Já seu compatriota tem páginas rasgadas, sobram traças. Spencer retruca, protesta e se compara a Prometeu, grita dolorosamente que suas tripas é que estão sendo arrancadas por abutres, e tudo porque trouxe luz à humanidade. Sófocles ri-se num canto, já que seu “Prometeu acorrentado” também têm páginas a menos. “Meu herói sou eu mesmo”. Ora, como pudera descer tanto, este Sófocles nunca foi lido! “Família maldita me adotou”, resmunga. E nenhum outro resmungar será tão solitário e inútil quanto este.
Voltaire está num canto, com o perdão de outra metonímia. São as “Cartas inglesas” e também “Candide”. Este é pequeno, discreto, parece sufocado. O outro passara por privações certamente menores que as do homônimo herói do livro. A capa surge machucada, aleijada mesmo, e parte do frontispício está à mostra. E as “Cartas”, embora o terceiro livro mais bem posicionado, estão mutiladas. Mais magras que Voltaire, faltam-lhe páginas, faltam-lhe as pernas, faltam-lhe ossos, boa parte do sangue se esvaiu. Suas colegas “Cartas portuguesas” parecem mais em forma. O livrinho de Mariana Alcoforado tornou-se uma espécie de “queridinho” de algum morador da casa, a casa na qual a edícula se encontra, isolada e afastada do movimento do mundo. Mas é claro, sempre surge algum intrometido a quebrar as regras de silêncio e cenobitismo, para protesto do rabugento H.L. Mencken, um dos mais faladores e que jura que ainda não nasceu um leitor para ele. Pode ser verdade: seu livro, de textos de sucesso da década de 1920, nunca foi lido. E Mariana Alcoforado já foi vez ou outra vítima de assédio de uma adolescente da casa, talvez à espera do “príncipe encantado”, dizem os invejosos e velhacos vizinhos.
Mas as lusas cartas são, é evidente, uma exceção. Há um grande temor pelos livros que desapareceram nos últimos anos. Onde foi parar “O livro das Canções”, de Heine? Mencken diz que foi queimado, como eram queimados na Alemanha nazista e culpa a maldição que Heine teria se pregado ao dizer que começamos queimando livros e terminamos queimando homens. Seu colega Goethe, mais tranqüilo, afirma que ele está num país distante, foi levado para um local de troca, e nunca mais foi visto. Outro saxão, Hölderlin, diz que o livro afogou-se numa lagoa. Embora silencioso Hölderlin ainda surpreende a todos com juízos sem juízo algum e com palavras poéticas, e se os homens não o lêem, os livros ao menos têm por ele certo carinho, aquele carinho por um parente doce e enfermo.
Na verdade, Heine estava ainda entre eles. Paralítico, deprimido, louco, colocado na horizontal e pisoteado por pelo menos uns oito livros, que sentiam pisar em algo macio. Heine, o judeu, não falava. Não queria falar. Achava que já havia deixado sua mensagem ao mundo.
Embora conflitantes entre si, os livros parecem unir-se numa espécie de resignação na qual nem há mais espaço para a esperança. Para alguns é o “Purgatório de Dante”. Mas “A Divina Comédia” não está ali. Shelley perguntou por ela, um dia. “Está morta”, respondeu Nietzsche, misterioso. “Depois de Deus foi Dante que morreu?”, zombou o romântico inglês. Mas de fato, há muito não a viam, parece ter sido levado anos antes junto com dois volumes de Homero. “Mortos agora somos nós”, zumbiu alguém sinistramente, ao que parece o azul-desbotado Allan Poe.
Na minúscula edícula, os maiores embates do pensamento travados pelas próprias paginas, que se sentem tão ou mais importantes quanto seus autores. Afinal, aprenderam deles o conhecimento que deveriam levar ao mundo. Porém, no cemitério dos livros cada capa é um túmulo e dentro dele apodrece um cadáver.
Inúmeras vezes o cemitério foi aviltado; o túmulo das “Cartas inglesas”, violado mais de uma vez. Seu corpo apodrecido aparece num mórbido e triste estado, fétido mesmo, distante da grandeza que almejara ter em vida. Corpos, por toda parte há corpos mutilados. “Revolução”, prega “Das Kapital”. “Sim, trocar homens por porcos”, zomba o volume de Orwell. A revolução está sempre em curso nessa edícula úmida: livros vão e vêem, a maioria se empilha e apodrece, suas idéias tornam-se comida para as traças.
As traças gostam de Dostoievski. O russo é o preferido delas. Diz-se outro “Prometeu”, mas sente pagar pelos pecados de Raskholnikov. E nenhuma traça parece querer um volume esquecido, alijado das conversas e menosprezado de Paulo Coelho. Aliás, nem “Todos os nomes”, de Saramago, conversa com o brasileiro. As traças gostam dos russos. Os russos estão às traças. “Melhor que os vermes”, diz um Machado de Assis, deve ser o “Brás Cubas”. Ao contrário de todos, Thoreau gosta dos bichos. E os morcegos gostam de “Walden”. E de Emerson.
Dizem que Erasmo enlouqueceu. Uma edição feia; porém respira ainda a alegria de outrora. Alguns afirmam que nosso holandês tem transtorno bipolar (ao menos o cruel Swift teria dito isso, fofocou o esquisito Fernando Pessoa). O fato é que há muito ninguém dá atenção a ele, e seu amigo Morus perdeu a capa e está desfigurado, irreconhecível, sente-se alguém sem cabeça. Nem o “Hamlet” sente-se assim. Mas os volumes de Shakespeare, sempre abraçados e suados na mesma coleção verde esmeralda, estão pra lá de metafísicos e sem capacidade de sorrir. O irmão mais velho da família é “Noite de Reis”, uma edição da década de 1930. Nunca foi lido, mas é um velho forte, bem conservado, certamente em virtude da proteção de “Coriolano” e “Júlio César”.
Maquiavel foi maquiavélico. “O príncipe” foi confundido certa vez, talvez pela adolescente das “Cartas portuguesas”, com “O pequeno príncipe” de Saint-Exupéry. A menina esqueceu o italiano do lado do infante livrinho, numa posição mais arejada e recebendo um pouco de sol, longe dos bolores e armadilhas do tempo. Mas o tempo é um grande escultor, e traiçoeiro, tenta ensinar Marguerite Yourcenar.
Wilde gosta de Rimbaud. Mas Agostinho detesta Wilde e têm fé em “Iluminações” do jovenzinho francês. “Sodomita!”, diz aos berros. O dândi britânico parece não se importar. E de fato, o volume de poemas de Rimbaud é belo. Tão belo quanto Dorian Gray. Agostinho diz orar pelas “almas perdidas”: Schopenhauer, Verlaine, Byron são algumas. Convida-os à cidade de Deus. Mas a única cidade a que pode aspirar está nessa estante mofada. Todo mofo é igual, todo amarelo é igual e será todo livro papel quando esquecido? “Hamlet” afirma só haver caveiras ali. Na verdade engana-se, não há caveiras, mas há cadáveres que apodrecem vivos. São mortos-vivos, ou melhor: vivos-mortos. Têm o sentimento do mundo em si e nenhuma perna para fugir. Raspam-se uns nos outros como se mortos num campo de extermínio. Convivem com chagas incuráveis e nenhum dono de sebo aparece para roubar-lhes da solidão das idéias, a mais cruel de todas. Verdes, vermelhos, azuis. São cores pálidas, uns têm capa, outros estão morrendo. Teorias que nasceram mortas. E o prelo pariu os livros com idéias revolucionárias, idéias agora confinadas em páginas mortas, em letras mortas, numa cela desconhecida.
Mas algumas teorias têm alterado a face do planeta, alterado a história e o pensamento, e por que parecem esquecidas como se o mundo não mais precisasse delas, como prostitutas das três da matina que cobram barato e desaparecem? E ainda que os debates persistam acalorados, os livros não cessam de lembrar que têm seu formato em virtude das mãos e olhos dos leitores. Que leitores? Leopardi (ou os “Cantos”) diz que foi menosprezado por uma “velhota fedorenta”. “Estou bem sem leitores”, afirma o melancólico. Mas a solidão permanece como um ácido e nem Shelley, nem Baudelaire, nem Swinburne possuem láudano para esquecer da vida e da morte em vida. O pouco de álcool que havia ali um livrinho de Poe bebeu.
Meu Deus, que lugar pavoroso seria esse? Schopenhauer trouxe suas teses, afirmou que a Vontade implicava numa vida má, em existência cerceada, e que os livros não fugiam a essa lógica. Mandaram-lhe calar a boca, como de costume.
Ninguém ouvia Paulo Coelho. Sim, Paulo Coelho. “Idiota, pedante”. “E mentiroso”, concluía um Jorge Luis Borges, que afirmava que a capa do best-seller era horrível e afetada. Porém um dia Tolstoi indagou-lhe sobre sua história. “Por que o lazarento barbudo não se matou antes de pirar”, resmungou Flaubert. O maltrapilho volume de Turgueniev quase bate no nervoso francês e dirige-se a Tolstoi: “prossiga, Liev”. “Sr. Paulo, seu volume parece novo, de onde veio?” “Da Biblioteca dos Livros Encantados”, respondeu o “Sr. Auto-ajuda”, como o chamavam. “Onde fica?”, questionou o Tolstoi. “Vocês não vão acreditar”, e fez suspense. “Responde, seu palhaço”, e a voz partiu de um irado Thomas Mann. “Onde fica? Ora, em qualquer lugar que não aqui”, e calou-se no seu canto o “Sr. Auto-ajuda”, e nada mais disse.
Passaram-se semanas desde a conversa. Eis que chegou um forasteiro. Capa azul e branca, novo, “O Náufrago”, de Thomas Berhardt. “Não faz muito que cheguei aqui”, e começou sua história. “Estava em viagem, numa bolsa, aqui por perto, não sei bem onde, e fui parar aqui.” “Um naufrágio?”, indagou alguém. “Creio que um maremoto me trouxe até aqui. Me disseram que não mais seria lido. Que eu fazia apologia ao suicídio. Que já estava antiquado. E olha que nasci numa imprensa há dois anos, vivi numa biblioteca grande, fui parar num sebo e cá estou”.
Todos sentiram um pouco da dor do viajante, ou do mais novo “morto” de um cemitério de idéias. Paulo Coelho ergueu-lhe a voz: “Conhece a Biblioteca dos Livros Encantados?” “Cale a boca, idiota”, exigiu Maiakovski. “Sr. Náufrago, desculpe nosso amigo, um tanto senil e debilóide”. Mas o novato ficou atiçado. “O que vem a ser isso? Que biblioteca é essa?” “Fica em algum lugar que não é aqui”, disse com ares de profundidade Paulo Coelho. “Enquanto vinha pra cá, nas mãos de uma senhora gorda e enrugada, notei que passava por vários livros, e muitos reconheci: um Sade, um Kant, talvez uma Duras, não sei bem. Maupassant estava lá”. “Maupassant?”, fez o incrédulo Flaubert. “Sim, e outros, em melhor estado que vocês. Amigos, parecem todos uns mendigos, o que houve aqui?” “Estamos aqui há muito tempo e por muito tempo ficaremos”, afirmou Tostói. “Aqui somos cadáveres, percebe?”.
Porém Berhardt não assentiu. “Ora, julgam-se mortos, meus amigos?” “Que outra morte para um livro que não ser lido”, disse um Rousseau com voz fanha. “Só o depois-de-amanhã me pertence, eu nasci póstumo”, retrucou Nietzsche. Mas nem mesmo Nietzsche parecia mais inovador. “Pois então terá de sobreviver à morte física, também. Estamos indo para o crematório – finalizou Berhardt. A velha gorda diz que não estamos em seu gosto e seremos reduzidos à cinza”.
“Crematório?”, e a pergunta era geral. “Então Heine tinha razão e o próximo passo será ver pessoas pegando fogo!” “Iremos morrer”, balbuciou um antigo Dickens. “Já estamos mortos”, disse Dostoievski.
Mortos. E agora mais mortos que os mortos. “Só o depois-de-amanhã me pertence”. Nietzsche ainda aguardava pelo Eterno Retorno. Uns dias depois, nossos heróis e anti-heróis caminhavam sem volta para a tumba. Os loucos, os sãos, os feios e os belos, os bêbados e os jovens. Berhardt estava certo em suas profecias. Antes, Heine estava certo. O que restaria de um “Noite de Reis” que nunca foi sequer aberto? De um Spencer que apodreceu e nunca pode apelar para uma “condicional?” Maiakovski, London, esses não tinham medo, naturalmente. “As cinzas ninguém profanará. Se o fizerem, terão uma bela tosse”, gracejou Voltaire. “Voltaire é um bobo alegre”, disse um merencório Hegel. “A propósito, meu nome verdadeiro é François-Marie Arouet”, sublinhou o iluminista franco. Que diferença isso faria? Alguém tem nome quando morre? “A pior morte é a morte em vida”, veio de um tal de Lima Barreto, com o sugestivo título de “O cemitério dos vivos”.
Dias depois, estavam todos queimados, servindo de combustível numa lareira. A dona da edícula, que era dona de uma imensa e inútil biblioteca, tinha uma bela propriedade. Era verão. Calor. Mas a lareira era romântica. Havia lenha. Mas a velha corpulenta gostava de ver papel queimando. E fazia questão de ler cada título antes de abastecer o fogo. Strindberg, Poe, Kierkegaard, Rimbaud, todos títulos que recebera do falecido e ranhento marido. Ela odiava o marido. O marido a desprezava. Havia muito mais livros, é claro, na tal da “Biblioteca dos Livros Encantados” a que o agora tostado Paulo Coelho se referia. Quem sabe um dia um romance a distraísse, ou algum amigo lhe tomasse de empréstimo um filósofo, ou sua filha tornasse a se apaixonar e buscar algo como “Cartas Portuguesas”.
E a filha ficou bastante entristecida quando chegou em casa e soube do repentino gesto da mãe, a qual qualificou de nazista. “Onde está o livrinho da Alcoforado?”, questionou quase aos berros. “Nazista!” A mãe, sebenta, respondeu com ar de superioridade. Não, minha filha, aprenda antes de falar. Isso não é nazismo”. “Os nazistas faziam isso, mãe!” E a senhora retirou-se pesadamente para o quarto, e voltou com um livro grosso e bonito nas mãos, e falou: “É certo que faziam isso na Alemanha, Eva. Mas não me lembro de haver nada nesse livro sobre isso, se queimar ou não livros é nazismo. Não me lembro. Faço mesmo por alguma espécie de prazer, e afinal, já usei os livros, a maioria não vale nada mesmo.”
O volume nas mãos gordas da senhora excêntrica chamava-se “Minha luta.” Uma edição da década de 1950, bonita mesmo, em capa dura avermelhada e com uma suástica nazista no centro. O livro sorria ao ver tantos colegas em chamas. Sabia que nunca estaria entre eles. “Isso é nazismo, livros ao fogo? Ora essa, Eva. Se quiser algum especifico, eu te compro”. E colocou o seu “Mein kampf” sobre a mesa, acendeu um cigarro, e jogou de uma vez as obras de Shakespeare e Marx, dessa vez sem olhar o que jogava. E ao atirar o esquecido e resignado “Livro das Canções”, de Heine, soltou um grito.
“Que foi, mamãe?”
“Queimei meus dedos. Maldito livro!”
Heine pegava fogo, mas sorria. Era um sorriso convicto de um vencedor à beira da morte. “Primeiro livros, depois homens.” Aquele fogo talvez fosse o de Prometeu, a pira roubada dos deuses para trazer sabedoria a uma atormentada Humanidade.
(Belo Horizonte, set. 2008)