domingo, 29 de janeiro de 2012

Um jogo da vida

João Antônio (à direita) com o elenco de "O jogo da vida"

Logo cedo me deparo com postagem no blog do Nassif, sobre Carne Frita - algo como o Pelé da sinuca. Figura afeita à malandragem de outros tempos, a qual subsistia com seus valores próprios, códigos e etiquetas, Carne Frita, como bem lembra o texto, é de um tempo anterior a Internet, e portanto pouco lembrado (exceto em meios específicos).

Eu próprio só vi seu jogo numa de minhas diversas e vãs buscas pelo filme "O jogo da vida", de Maurice Capovilla. Baseado no clássico conto "Malagueta, Perus e Bacanaço", de João Antonio - grande intérprete e voz dos bas fonds da malandragem, dos jogos da vida em ambientes no qual sorte e azar convivem com talento para a arte da vitória. Até onde sei, "O jogo da vida" é a única (ao menos a mais plausível) conexão de João Antonio com o cinema; roteirizou o filme, mas teria se desentendido com o diretor em dado momento.

"O jogo da vida" tem música de Chico Buarque, e no elenco Gianfrancesco Guarnieri, Lima Duarte e Maurício do Valle. E aparentemente está perdido, ou circunscrito a coleções. Aliás, minhas esperanças de achá-lo com certo conforto se apequenam após o cerceamento ao site MegaUpload, outra fascistada dos que se querem donos do mundo; dos que criaram a Rede (como a Skynet de "O exterminador do futuro") e agora percebem a nulidade de seu poder de controle sobre ela.

Sem entender muito de sinuca e desprovido de habilidade para o jogo observo, num pequeno plano sequência que surge no YouTube, a leveza dos gestos de Carne Frita, a suavidade do domínio, a tranquilidade do arremate perfeito.



A cor do dinheiro

Martin Scorsese também filmou a sinuca em "A cor do dinheiro", com Paul Newman e Tom Cruise, uns dez anos após o filme de Capovilla. Outra recordação que me ocorre está em "O pagamento final" de Brian de Palma, uma jogada literalmente mortífera de Carlitos - Al Pacino.

Este ano, o Oscar reúne Scorsese (de novo), Spielberg (novamente), Woody Allen (again) e Terrence Malick. Numa edição anódina, clima meio "fim de feira", interessa pelos veteranos de sempre. Mareado pela falta de criatividade, Hollywood ainda parece ter nestes senhores, bem ou mal, seus provedores de vida, à espera dos meninos que não crescem.

09hs40m

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Dez cineastas dos EUA no decênio 2001-2011


Sean Penn e Kevin Bacon em "Sobre meninos e lobos" (2002)

1- Clint Eastwood. Não bastou "Sobre meninos e lobos", talvez sua obra-prima - ao lado de "Os imperdoáveis" (1992). Ainda faria "Menina de ouro", que nasceu clássico. Estudaria os dois fronts da guerra e o valor da imagem em "A conquista da honra" e "Cartas de Iwo Jima". Não satisfeito, remeteria a sua própria trajetória, de modo violentamente doce, em "Gran Torino". Um intérprete indispensável de seu tempo e seu país.

2- Joel e Ethan Coen. Entraram consagrados, sairiam do decênio não apenas oscarizados com o impactante "Onde os fracos não têm vez", mas no auge da maturidade com o remake de "Bravura indômita"; sem deixar o cinismo, o humor negro, e a obsessão por decifrar os códigos da América, da antiga e interiorana, até a recente e consumista de "Queime depois de ler".

3- Terrence Malick. Na década, filmou "O novo mundo". Mas "A árvore da vida", de 2011, é seu ponto forte. Se deixou dúvidas sobre seu sentido, sobre o suposto exagero, fomentou uma discussão fortíssima em torno da obra, à altura de sua expectativa. E mais uma vez alçou o seu cinema no terreno da metafísica, buscando por detrás de maya o sentido último da vida. Uma experiência raríssima.

4- Quentin Tarantino. "Kill Bill", ambos, para além da diversão e das referências, garantem o exercício de reflexão do cinema sobre si mesmo, num contexto cada vez mais fechado. E "Bastardos inglórios" viria para consagrar o esforço.

5- M. Night Shyamalan. Controverso, com dois "framboesas", castigado pela crítica. Mas é difícil não admirar o talento dos planos sequências de "Sinais" e "A vila". Também difícil ficar indiferente - ainda que para defenestrar - ao seu talento inato para a contemplação, numa seara cinematográfica no qual este termo é tabu. Alguém perguntaria, ao ler esta lista: Paul T. Anderson? Aronofsky? Christopher Nolan? Peter Jackson? Sam Mendes? ... Shyamalan, minha resposta.

6- Martin Scorsese. Dir-se-ia "imorrível". Além de "Os infiltrados", trouxe o curioso "O aviador", o vigoroso "Gangues de Nova York", ainda documentou Bob Dylan, os Rolling Stones e George Harrison. O último nome da geração rock & roll a tentar, ao menos, manter o estigma. Sem falar no medonho, angustiante, amargo e diabólico "Ilha do medo", seu momento mais original na década.

7- David Cronenberg. Muito se estranhou que Cronenberg, autor canadense de "Gêmeos", "A mosca", "Scanners" deixasse seus efeitos de lado, ao realizar dois autênticos filmes de mestre: "Marcas da violência" e "Senhores do crime", ambos com Viggo Mortensen. Mas teria Cronenberg esquecido suas obsessões - o insólito da mente humana, a visão multifacetada da contemporaneidade, os ecos do pensamento pós-moderno, o drama da identidade, tão singulares em seu esforço artístico? Seus filmes recentes deixam claro que não - e aguardamos seu recente trabalho sobre C. G. Jung, Sigmund Freud e Sabine Spielrein, "A dangerous method".

8- Woody Allen. De dramas como "Match point", "Vicky Cristina Barcelona", até as comédias sutis de sempre: "Dirigindo no escuro", "Tudo pode dar certo". Entre a Europa e Nova York, atravessou mais uma década esbanjando independência e personalidade. Não é a toa que nomes antigos, como Coppola e Scorsese, já invejaram sua liberdade criativa.

9- Tim Burton. Outro nome controverso, mas com os ótimos "Peixe grande", "Sweney Todd" e "Alice"; sempre bom ver e rever seu mundo gótico, deslocado, romântico, de criaturas sem chão e referência, ora pendendo para certo niilismo cruel, ora para uma necessidade de compreensão e perdão - algo um tanto natalino, como seu Willy Wonka. E bom lembrar que é o autor dos dois "Batman" mais interessantes, nessa época de babação para Christopher Nolan.

10- Gus van Sant. Se em "Elefante" buscou a compreensão de um problema complexo através de um autêntico estudo sobre o universo e os padrões dos jovens (num filme experimental, com ecos nos trabalhos posteriores), apresentou seu melhor momento em "Milk", mostrando que sabe lidar bem com temas difíceis.

Foi uma listinha de última hora, devo estar esquecendo milhares de nomes. Talvez James Cameron, David Lynch, mesmo Brian de Palma, ou obras de animação, que foram tão marcantes, talvez como nunca antes - caso do belíssimo "Toy Story 3". Noutra hora, deixo uma nota sobre "10 cineasta dos últimos 10 anos além de Hollywood - pensei em Amos Gitai, Lars von Trier, o velho Godard, o velho Resnais, Luc e Jean-Pierre Dardenne etc. E filmes nacionais, também.

Feliz 2012!

16hs58

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Louis Malle tira água de rocha em “Meu jantar com André”


Ao menos uma vez na vida todo amante do cinema deveria ver “Meu jantar com André”, de Louis Malle. Pode ser um desafio ao espectador não afeito a um “tipo contemplativo” de cinema, mas também não é um simples jogo de exercícios para um espectador supostamente sofisticado.

Por duas horas, Wally e André conversam. Dois autores de peças de teatro, em crise. Enquanto comem, conversam sobre suas vidas. Ao final, despedem-se. Nada poderia soar mais banal, e curiosamente alguém já apontou “My dinner” como uma obra desprovida de clichês.

O que haveria de tão fascinante no filme? Preocupações com enredo? Tudo soa improviso e sinceridade, mas não como no recente “Dez”, de Kiarostami, outra obra que instiga pela economia de movimentos. No entanto, com os poucos planos, soa originalíssimo, com suas questões existenciais que surgem. E se entrelaçam suavemente com questões pessoais – como o porquê de usarmos um “cobertor elétrico” ou problemas sobre o entendimento entre seres humanos.

“My dinner” surpreende talvez porque sempre esperamos demais. E uma mera conversa parece não satisfazer, num primeiro momento. Tudo ecoa sinceridade, sem afetação, a loquacidade típica de qualquer conversa. André, em dado momento, encara nossa sociedade como perdida, um antro de “robôs”. Talvez isso ajude a explicar os moldes do quadro de Louis Malle: certo pessimismo pré-aceito com nossa condição humana, e portanto, com a arte. Sem precisar exatamente de grande encenação, dois rostos que se defrontam, com a simpatia e o mínimo de amizade exigidos, para tentar se situar face ao caos do mundo.

Encanta sobretudo pela capacidade de trazer empatia com (aparentemente) muito pouco. Filme de ator, mas tão perfeito nos closes que parece planejado nos mínimos detalhes. É mais um filme “falado” o “Um filme falado”, de Manoel de Oliveira. E tem algo de Bergman, mais no começo e fim, e o Satie ao final lembrará “Another woman” de Woody Allen (realizado depois). Mas se provoca alguma perturbação, é por trazer uma questão implícita sobre os valores do cinema e da arte. Precisamos de excessos para nos entender? Precisamos de mais mobilidade ou barulho?

Em dado momento, pensamos, como seria a continuação de um filme assim? Parece inclassificável. Inviável. Único, embora inúmeros os filmes em que pessoas façam refeições e discorram, ainda mais sobre temas um tanto exóticos.

Malle converte pouco em muito. Pode parecer cansativo, mas será sempre instigante.



19hs57

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

“A árvore da vida” seria a mítica reconciliação da “geração do parricídio”?

"Father"

Desde o lançamento de “A árvore da vida” e sua vitória em Cannes, percebo o quanto se dividiu a crítica a respeito. É uma obra complexa, como era “Apocalipse now” ou “Taxi Driver”, cada qual a seu modo. Daquelas que nos impelem a juízos precipitados – vide as vaias em Cannes (ou os aplausos muito corteses).

De qualquer forma, existe uma singularidade no filme, para além da beleza solene e majestosa e a belíssima fórmula de montagem que caracteriza o cinema de Terry Malick que muito tem ocupado os críticos: seu aspecto supostamente religioso. Ou para alguns: um excessivo sentimento paternalista que caracterizaria o filme.

Coloquemos algumas especulações.

Em algum momento de seu livro "Easy Riders, Ranging Bulls, como a geração sexo-drogas-rock´n´roll salvou Hollywood”, Peter Biskind comenta as reações a “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, após imensa expectativa por seu lançamento. Depois de um processo traumático de produção, onerosos gastos, loucuras e abusos, saía aquela jornada para o “coração das trevas”, sombria, insana, drogada, retrato do artista em crise e painel dos EUA pós-Vietnã.

Segundo Biskind Coppola – atráves de seu capitão Willard (Martin Sheen) não tinha dúvidas sobre que fazer com o coronel Kurtz, vivido por Marlon Brando, quando o encontrasse. É aquela figura sinistra que precisará, enfim ser, derrotada. E certamente é mais que isso. Marlon Brando, como persona, sempre pareceu muito maior que Coppola, Friedkin, Scorsese ou George Lucas. Ícone de outra geração, já consagradíssimo ao chegar em “Poderoso chefão”, filme que daria imenso poder e autonomia a Coppola.

Já no primeiro “Godfather”, Coppola, sempre afeito a famílias e famiglias, não questiona o poder de seu Vito Corleone (Brando). O esperto e calmo Michael (Al Pacino), filho caçula, sem deixar respeitar seu pai, assume ao seu modo a condução da família após a morte do “chefão” – massacra sem dó os inimigos. Daí em diante, todos saberemos quem é o real “godfather”. Se Coppola sentiu-se diminuído por um herói de outra geração, a quem muitos tributavam os maiores méritos da obra, parece ter expurgado seus demônios em “Apocalipse Now”.

São especulações, é evidente. Mas, conforme o próprio Biskind e muitos outros acentuaram, a geração que surgiria nos anos 60 e 70 é frequentemente apossada por sentimentos parricidas. Dentro da vontade de transgressão, ao estilo “Bonnie e Clyde”, ou “Sem destino”, de Dennis Hopper – road movies transgressores, aos quais se pode somar outro, menos célebre: “Terra de ninguém” (Badlands), de Terrence Malick.

Em “Badlands” o personagem de Martin Sheen (de novo!) mata o pai de Sissi Spacek. Ela? Parece não ter "processado" direito, afinal o que importa é o sentimento de estar com seu amante e “sair pelo mundo afora”. Era o que Hollywood fazia naquele momento, e não à toa os road movies da época foram marcantes. Caso de “Alice não mora mais aqui”, com o teor libertário, algo romântico, em sintonia com os filmes anteriores de Martin Scorsese, “Caminhos perigosos” (Mean streets) e “Sexy e marginal” (Boxcar Bertha).

Outro filme de estrada digno de memória é o curioso “Encurralado” (Duel), de Steven Spielberg. Pouco após as cenas nada heróicas do tosco detetive vivido por Gene Hackman em “Operação França”, a velocidade aqui ganha importância ímpar, numa obra sobre o irracional, o medo do desconhecido, a necessidade de superação, o desamparo – um filme um tanto parecido com “Tubarão”.

Por falar em parricídio, haveria melhores exemplos que Spielberg e George Lucas? De “Contatos imediatos” a “Império do sol”, passando por “ET”, sempre o desamparo paterno teve de buscar outra mediação. O terceiro “Indiana Jones” parece, ainda nos anos de 1980, um tentativa de reconciliação e perdão – talvez mais de Spielberg (diretor) e Lucas (roteirista e produtor) que do resto da geração.

Sem falar nos garotos perdidos do Coppola anos 80 em "Vidas sem rumo" ou "O selvagem da motocicleta" (Rumble Fish). Seu recente “Tetro”, de modo complexo, também coloca a questão pai – filho, num processo complexo de reconciliação, como que apotando, tal qual o filme de Malick, para uma mudança de posição.

Tanto George Lucas como um Paul Schrader sofreram com seus pais, foram marcados por convívio dificílimo com a figura paterna na juventude, e parecem ter dedicado boa parte de sua arte para literalmente promover seu desligamento – ou agressão. No caso especial de Lucas, é algo evidente em “Star Wars”, sua clara alegoria da batalha bem versus mal num filme infantil – matriz de um processo de infantilização que perdura até hoje. E logo saberemos que a relação de Luke Skywalker e Darth Vader não é apenas o duelo de dois inimigos.

Por onde andaria essa geração? Dennis Hopper já morreu. William Friedkin e Peter Bogdanovich há muito não parecem lembrados. Sem falar em Brian De Palma. Coppola filma quando quer. Spielberg reina no cinema espetáculo. Curiosamente, terá sido Terry Malick, perfeccionista obcecado, o mais indeciso dos cineastas, sempre trabalhando em ritmo lento, o homem que propõe uma “trégua”, ou um entendimento de que nosso espaço pra transgressão já se foi há muito tempo? Não será esse o criticado aspecto paternalista de “A árvore da vida", talvez uma opção mais consciente e clara sobre o envelhecimento de uma geração?

Aliás a mesma que megavalorizou o papel do "autor", e parece ter desabado quando os jovens gênios dos anos setenta passaram a estourar o orçamento com fracassos - Spielberg em "1941", Coppola com "Apocalipse now" (embora tivesse seu retorno), Friedkin com "Comboio do medo" e o caso mais gritante: Michael Cimino, de "gênio" em "O franco atirador" a maldito eterno" em "O portal do paraíso", o filme mais caro feito até então (45 milhões, absurdo à época, que rendeu menos de 2 mi em bilheteria).

E "The tree of life"?

É claro que o Pai no filme (Deus, para uns, numa discussão polêmica) tem sua culpa interna – após a morte de um dos filhos, anunciada logo no início. Mas há os sentimentos do Filho face a ele, a desconfiança e o desejo de vê-lo morrer, o ciúme edipiano em relação à mãe, o amor ao irmão.

“A árvore da vida” pode ser definido como um filme sobre a Criação. Tudo ali colide perfeições com imperfeições – um bandido, surge um aleijado, a miséria, o sentimento de fracasso que o Pai (Brad Pitt) não quer que chegue aos filhos. Adulto, o Filho (Sean Penn) medita, logo no início, sobre o egoísmo da humanidade. Malick, filósofo existencialista, prossegue fatalista como em seus “Cinzas no Paraíso” ou “Além da linha vermelha”, num universo no qual nossa autonomia é pra lá de restrita.

Sua busca por compreensão de nosso desamparo talvez seja uma boa pista para rever seu filme, deslumbrante visualmente tanto quanto intrigante filosoficamente. Com frequência temos evocações de raízes (em vários sentidos da palavra), como em seus filmes anteriores, a presença telúrica, quando não o fogo renovador e a água conciliadora. E um tema seminal em sua obra é justamente nossa solidão num mundo um tanto “desenraizado”, algo tão afeito a sua geração, sempre disposta a "chutar o balde" ("Easy riders") na vida e da arte – Malick, antigo conhecido de Scorsese, Lucas, De Palma, Schrader etc.

E Malick, o parricida de “Badlands”, versa sem pudores sobre a criação e o sentido da vida – já que a rebeldia virou vitrine de boutique e parece não servir pra nada: pinta a união, a compreensão recíproca, sentimentos nada afeitos ao empreendedorismo selvagem e caduco de nosso tempo - algo daquele que Scorsese ridicularizou em "Depois de horas". Ou "O lado negro da força" do "Star Wars" de Lucas, diretores jovens derrotando pela criatividade produtores velhos. (Um evidente paradoxo, já que Lucas e Spielberg seriam peça-chave da "fundação" de um modus cinematográfico que enterraria os desejos de criação de seu geração, abrindo espaço novamente pra vingança dos produtores e do capital).

Malick, o metafísico que sempre quis entender nossa razão de ser no mundo, parece cansado da especulação vazia, da existência sem sentido, do caos do ódio e da guerra (como em seu “Além da linha vermelha”). Seus filmes, repletos de silêncio e contemplação, com planos profundos e claro fascínio pelos horizontes, sempre acentuaram essa noção de distanciamento dos sujeitos e sua alienação – a impossibilidade de tocarmos a essência “verdadeira” dos fatos – num mundo desprovido de sentido.

“A árvore da vida” ainda mantém seu respeito por aquilo que entende como incognoscível. Mas traz uma receita humanizadora, apontando para a compreensão e certo afã pelo reencontro – com o Pai, com alguma coisa que aparentemente deixamos pra trás e talvez não saibamos o que seja.

18hs52m

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Mesmo tosco, “Glen ou Glenda” foi provocação à frente de seu tempo

"Mas louco é quem me diz..."

Todo filme de Ed Wood, o célebre “pior cineasta de todos os tempos”, é uma diversão impagável. Um amontoado de absurdos, descontinuidades, erros grotescos, diálogos toscos, histórias sem-noção, enquadramentos e cortes mal feitos etc.

Ed Wood era, sobretudo, um excêntrico. Seus filmes estão cheios de vampiros, ET´s, criaturas monstruosas – havia nele um fascínio por temas fantásticos, e também pelo policial, o noir, além da admiração por Orson Welles. Ed estava convencido de sua genialidade, e que um dia seria compreendido.

Talvez este dia não tenha chegado, o que é compreensível. Ver seus filmes ainda é válido para boas risadas, sobretudo “Plano 9 do espaço sideral”. Mas se os filmes de Ed ganharam tal reputação, será apenas pelo excesso de tosquices, ou também por causar incômodo com alguns temas polêmicos?

“Glen ou Glenda” é um filme sobre um travesti, ao modo de Ed Wood. Apresentado bizarramente por Bela Lugosi, com insinuações meio apocalípticas no começo, desconexas com o resto do filme – típico de Wood, diálogos ridículos, um amontoado de psicologismo de segunda mão, com inserções “documentais” de cunho “antropológico” para provar que – sim!, o homem pode se vestir de mulher se quiser!

Nem é preciso elencar as fartas bizarrices do filme, com os delírios de Glen, sobre seus hábitos, os cortes ridículos, a aparição do diabo que o persegue, as vozes que se apoderam de sua mente etc. “Glen ou Glenda”, se tivesse uma realização um pouco mais acurada poderia ser visto como polêmico e instigante – e certamente se tornaria um cult pelo tema abordado. Como é Ed Wood filmando, torna-se um cult pelo festival de sandices e absurdos.

Para quem viu à época, pareceu ridículo ao extremo. E não deixa de ser. Ed realiza tão mal que em diversos momentos não se entende se está defendendo um ponto de vista ou fazendo chacota dele – para um público desavisado e menos “liberal”, é uma comédia mal feita, uma chacota trash.

Mas a simples colocação do tema é algo bastante singular. Ed Wood, que aparentemente não era homossexual, gostava de ser vestir de mulher. Simples. E escreveu o “genial” roteiro de “Glen ou Glenda”, com todos seus absurdos, como que a dar vazão aos seus hábitos.

Ninguém melhor que Tim Burton para realizar um filme sobre Edward D. Wood, Jr, muitos anos depois.

22hs16m