domingo, 8 de novembro de 2009

O Imortal Artista e o Cachorro Morto

"Sê guiado pelos Anjos"

Não careço nem ponto nem vírgula pra afirmar que Anselmo Duarte, desencarnado ontem, é um dos nomes essenciais do cinema brasileiro - e sempre o será.

Sua láurea em Cannes, que desbancou Antonioni e Bresson, foi vítima da neoinveja instaurada, apoiando sua mágoa no suposto conservadorismo dos moldes do filme. Anselmo foi tão conservador com "O pagador de promessas" quanto Vittorio De Sica em "Ladrões de bicicletas".

Ou seja: ¿ e lá estava Anselmo interessado em imitar Godard ou o penteado do Chabrol, andar com a gola olímpica do Truffaut e especular sobre a metafísica do cinema? Seu interesse estava em bem contar uma história, acima de tudo.

Como ator, foi um monstro. "Os casos dos irmãos Naves", do inovador Luís Sérgio Person, é exemplo único.

Nasceu em 1920, em Salto. E morreu ontem. Dia 7 de novembro de 2009 - Pr´este garanto que Morte não tem.

Cachorro magro

"A men called Caê" - Nasc. 1942 1978

Ah sim, hora de rastejar um pouco.

Começa em mim a erupção de indignação contra os que atacam o pobre Caê Veloso®.

Afinal, essa lorpa ambulante (é o cara da foto acima) tem tanta coerência intelectual quanto um jogador que beija o escudo do Palmeiras e vai pro Corinthians.

Caetano® é um caso de persona que quer a qualquer preço sobrepôr-se ao que realmente é: um bom compositor. O autor de Transa, Jóia, Bicho, Muito, adoro todos. Até flertei com Araça Azul.

Sim, é essa persona afetada e modernosa que toma o lugar de qualquer resquício de respeitabilidade que poderia haver neste cosmopolita carlista global, o especialista de tudo, sem domínio evidente de nada, parvo como escritor, e com boa parte da obra musical digna da lata do lixo.

Superou os recordes com a fala rançosa sobre o Lula. Nem se Lula fosse, aliás, o que este hierofante do saber-tudo diz ser, seria digno partir com um comentário daqueles.

"Todo mundo era poeta, todo mundo era atleta, todo mundo era tudo". Caetano® é tudo mesmo. Olhe mais perto e veja que não tem nada. É o desespero do cachorro morto que, carente que está de mídia vai atacando quem tem de sobra.

E segue Caê®, se jogando ano a ano nos braços da Globo - mas ao contrário de Roberto Carlos, que não solta essas asneiras e se contenta com o repertório de sempre.

Parem de implicar com o Caezinho®: se não há palhaços, quero meu ingresso deste circo de volta!



22hs02

sábado, 7 de novembro de 2009

Singularidades de uma Mostra desvairada

Manoel de Oliveira e a trupe de "Singularidades".

Pra não dizer que não falei das flores, aproveitei a portentosa estadia da Ziza - a Agnès Varda de São José - na desvairadíssima Paulicéia para ir curtir um pouco a Mostra.

Naturalmente pude aproveitar fatores como: a simpatia humanamente inviável da Ziza, sempre remando contra a corrente de meu sinistro mau-humor e minha sovinice satânica; os 20 reais que achei no chão; um ingresso que ganhei, graças a Ziza; e o colapso do sistema de melanômetros (e dos miserômetros também) dos cinesampas, o que permitiu minha periférica presença.

Foram 3 atos nessa ópera, cada qual com sua curiosa especificidade.

O primeiro deles foi "O jantar", filme passado de Ettore Scola. Já conhecia e apreciava muito o filme, e foi um prazer imenso revê-lo, sentir sua pulsão e sua cadência, nas quatro paredes sempre tratadas com excesso de carinho e inteligência por Scola. Destaque para Vittorio Gassman como o "maestro" de toda a folia.

Seguindo o roteiro, fomos ver uma coisa "nova e badalada". E aí, o melhor momento de todos, pra mim ao menos: "Singularidades de uma rapariga loura", saído da fornalha do centenário Manoel de Oliveira. Com 100 anos de vida, soa incrível alguém ainda dirigir um longa. Fazê-lo então com maestria, encanto, doçura e leveza, é um legítimo milagre.

Pois bem, operou-se o milagre: Manoel de Oliveira, o taumaturgo, não sei se mais lento ou não, mas com seu estilo característico, realizou um belo trabalho sobre o conto de mesmo nome de Eça de Queiróz - uma fábula sobre o quanto podemos nos iludir, nessa vida de malucos vai-e-vens, e o quanto as aparências enganam.

Leve e direto, com uma hora de duração, arrancou de mim e Ziza ótimas risadas, sobretudo na relação do mancebo Macário e seu titio, figura não exactamente simpática.

E pra fechar, um filme desconhecido de um autor recente, o "grosso" da mostra. Trata-se de "No vale profundo", obra assinada pelo japonês Atsushi Funahasui (espero ter acertado o nome do varão), focada na reconstrução de um pagode de cinco andares - uma bonita reflexão sobre o valor da memória, sobre o papel do cinema.

Infelizmente não deu pra ver mais coisas, dada a conjunção de factores tais como: tempo curto, muito "tiro no escuro", ingressos caríssimos, melanômetros e miserômetros por aí (também há os merdunchômetros no Frei Caneca) etc. Em todo caso, valeu pelo pouco visto, e pela presença inteligente e divertida da amiga Ziza.

(O trailer abaixo não é o de X-Men Origins. Aliás, é de se prestar atenção na bela voz de Leonor Silveira, que surge ao fundo.)



03hs13m

domingo, 1 de novembro de 2009

Pontos de inflexão na obra de Clint Eastwood

1- O estranho sem nome (1972)

Está mais para "ponto de partida"; um de seus primeiros filmes, totalmente tributário da influência de nomes como Don Siegel e John Stourges. Mas seu personagem é uma versão "piorada" daqueles dos filmes do Leone: um pistoleiro com pouco escrúpulo, incorreto ao extremo. Quem provocar leva bala. Uma delícia de ver.

2- Honk Tonk Man (1982)

Durante a Depressão, Clint encarna um músico alcóolatra, meio vagadundo, num road movie musical e sensível. Lembra demais "Menina de ouro" (e também "Um mundo perfeito"), pela relação mestre e discípulo, pai e filho (ou filha), e por outro aspecto que vai marcar toda a obra posterior do cineasta: a fragilidade imensa do homem, bem como seu drama em lidar com a solidão.

Também o cinismo como arma pra enfrentar a violência davida surge aqui, ou aparece pintado com mais vivacidade que noutras ocasiões.

Os demais grandes trabalhos de Clint estão impregnados do espírito de "Honk Tonk": o amor pela música em "Bird", o alcoolismo e a decadência em "Crime verdadeiro", a busca de uma segunda chance em "Os imperdoáveis" ou "Cowboys do espaço".

Uma obra-prima menosprezada. É o filme que resume toda a obra de Clint - bem antes de "Os imperdoáveis" e "Gran Torino", filmes tão autorreferenciais.

3- Bird (1988)

"Clint Eastwood para o mundo ver e curtir". Obra (nem tão) singela sobre uma artista inadaptado, outro relato traumático sobre a condição humana. Mas mostrou que Clint, com quase 60 anos, era ainda muito promissor.

4- Os imperdoáveis (1992)

Consagração como diretor, com ator, até como compositor do belíssimo "Claudia theme", regido por Lennie Niehaus. Um dos maiores faroestes já feitos, é uma reflexão infernal sobre a complexidade da alma do ser humano, e sobre a tentativa fracassada do homem em situar tudo em pequenos limites de "bem" ou "mal".

Tanto William Munny como Little Bill concordam que se encontrarão no Inferno, a Lei humana e o Bandido. William Munny, o fantasma assassino de mulheres e crianças, dirá ao xerife a frase que resume o filme: "Isso não tem nada a ver com merecer".

5- Meia noite no jardim do bem e do mal (1997)

É curioso como um livro de sucesso parece tão esquecido hoje, como "Midnight in the garden of good and evil". E mais ainda: embora elogiado, o filme homônimo dirigido por Clint também parece cair no esquecimento.

Em "Meia-noite" a moral humana adquire contornos ora pequenos ora superestimados, e se encolhe mais ainda em virtude de politicismos.

É um filme nascido pra incomodar, num clima "EUA Profundo", com espíritos - a metáfora da tal Consciência - ditando a todo instante o que os vivos devem fazer - como o fantasma do passado em "Os imperdoáveis".

Um dos trabalhos mais complexos e brilhantes de Clint enquanto realizador - e também grande reflexão sobre o mundo das aparências, soberbamente retomada depois em "A conquista da honra".

6- Sobre meninos e lobos (2002)

Talvez o trabalho mais denso, do ponto de vista psicológico, do nosso cineasta. Novamente a fragilidade da condição humana, que não se prende a pequenezas morais, é o enfoque, num drama de ritmo tenso do começo ao fim. Obra de mestre, de um diretor maduro e terrivelmente consciente do que faz.

7- Gran Torino (2008)

Repleto de referências a antigos personagens, truculentos ou não, é um filme que delineia uma mudança de tom espiritual em eventos para muito além do cinema. Uma das obras que captam mesmo um momento de transição no pensamento humano, no qual os valores de culpa devem ser expurgados;

No qual as relações de poder devem ser discutidas não mais em termos de força bruta ou violência;

No qual os sujeitos e objetos se confundem, e os espaços pra divisões (étnicas, religiosas etc) soam com a coisa mais ordinária de uma era decadente.

São filmes extremamente emblemáticos, não sei se mais que "Bronco Billy", "Um mundo perfeito", "As pontes de Madison", "Crime verdadeiro", "Menina de ouro", "Cartas de Iwo Jima", "A conquista da honra" ou "A troca", todos dignos de lembrança.

No entanto, parecem mais paupáveis quanto às propostas estéticas e temáticas exploradas pelo diretor, quase sempre com algum caráter de novidade ou de consagração. Mas não me levem a sério demais...



18hs59m

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Il Compagni: Alessandro e Andrea in una notte piovosa in Sao Paulo

Marcelo Mastroianni no clássico de Mario Monicelli

Houve mais de uma ocasião, a última com Queime depois de ler, dos Irmãos Cohen. Isso, há quase um ano. Depois estivemos em Ouro Preto, tomamos um bom café em sampa, e não mais.

Os desenhos do logo deste blogue são de Alvise Vivenza, sobre um quadro intitulado O funeral de Shelley. Tal qual o antigo do 'Byron & Shelley', agora exposto ao lado. Alvise, ou 'Alessandro', amigo querido com quem vivi por uns meses no Bixiga, entre 2005 e 2006. Dividíamos um andar na lendária República do Manuel, esse sim o verdadeiro Giardino del bene e del male.

Houve outros filmes que assistimos também, como o fantástico Free Zone, de Amós Gitai (ainda escreverei sobre). Mas a maior saudade daquela época era da nossa amizade desinteressada, coisa de duas almas livres e perdidas no mundo; amizade livresca e terrivelmente tabagista, de café a toda hora e da Avenida Paulista pulsando em nossos corações. Também a 13 de maio e seus encantos noturnos, uma lembrança querida.

Tenho saudade imensa de sua sinceridade às raias do absurdo; do seu talento com as cores, com as artes gráficas com a fotografia; de sua prontidão para ajudar em qualquer momento de sufoco. Tenho orgulho de sua amizade, embora distante de Roma (ou Verona) me sinta meio esvaziado (e olha que nunca fui à Itália...). Saudade mesmo....

Fomos algumas vezes à Cinemateca, uma delas para ver o maravilhoso "A pele do asno", de Jacques Demy. Mas não vimos. Estava lotado e fomos embora, fazíamos isso com frequência: dois impacientes incuráveis e sem-cerimônia. Fomos tomar uma birra num boteco qualquer. E fumar Lucky Strike, mas nunca em maço. Em maço, só na Itália.

Noutra ocasião, vimos o maravilhoso "Os companheiros" (Il compagni), obra-prima meio esquecida de Mario Monicelli, filme de sensibilidade impressionante, abordando a miséria econômica sem qualquer simplificação. Filme de mestre, esse sim. De alguma maneira, vai abrigar minhas lembranças até Sempre, feito aquele pontinho da Flor de Lótus que carregamos no peito e é essencial, mesmo que a gente não saiba disso.

In bocca al lupo (fortuna sempre!), Alessandro... Fino al nostro prossimo incontro, Mio Caro Amico!

Fabrizio de André, ricordi?



03hs18m

sábado, 24 de outubro de 2009

33ª Mostra SP: só falta melanômetro e atestado de riqueza

Brazil: fotografia tirada no interior do Maranhão

A Mostra de cinema de sampa, a principal do país, piora a cada ano em qualidade. Nove em cada dez filme são qualquer coisa, literalmente qualquer coisa; seu critério já consagrado é ter alguma grau aceitável de singularidade - como ser do Tadjiquistão, ou ser um zombie movie feito com 100 dólares, ou um documentário sobre a última tribo de uma ilha perdida na Micronésia.

Para sobreviver, depende das figurinhas históricas de sempre (neste ano tem Ken Louch, acho que Brian de Palma, Manoel de Oliveira, Kiarostami etc). E homenagem ao grego Theo Angelopoulos.

De resto, só chute no escuro. Compre a integral e good luck!

Esse ano a Mostra mantém a tendência elitista, com ingressos caros a 18 reais e baratos a 14. Até quatro anos atrás fui ver uma penca de Amós Gitai por quatro reais, na Cinemateca, o que está havendo? A Mostra precisa de grana urgentemente, pelo jeito.

Na verdade, parece-me que há uma tremenda confusão em se encarar a Mostra como um evento da cidade (e talvez devesse ser, visto que, embora sua realização tenha capital privado, também tem $$ de estatais e até do governo federal). A Mostra é um evento da Avenida Paulista, cujos arredores concentra os cinemas onde a Cinefilia faz a festa. Os arrabaldes da Mostra são a Cinemateca, na minha Vila Mariana, e os cinemas revigorados do Centro, como o Cine Olido.

Não existe Mostra, geograficamente falando, pra periferia. E periferia é qualquer coisa que passe do Paraíso ou Pinheiros. A Lapa, o Tatuapé, o Ipiranga são da periferia. Também Perdizes, Saúde, Jabaquara, Vila Maria.

Para além disso, é a pós-periferia: é a barbárie. É a São Paulo que São Paulo detesta e tem vergonha, pois São Paulo não é o Rio dos traficantes, nem é a Bahia.

Como a iniciativa pública falha em trazer opções alternativas, a Empresa Privada-com-dinheiro-público Mostra adquire contornos de evento oficial da cidade, coisa que não é. É um evento do Cine Bombril, do Espaço Unibanco, do Frei Caneca. Só falta a devida instalação do melanômetro (se o sujeito tiver percentual acima de 33 % de melanina *, não entra) e exigir atestado de riqueza.

Desempregados, cinéfilos de torrent e Pirate Bay, estudantes de Letras, classe média baixa e não-caucasianos: a Mostra Privada de Olhos Azuis do Brazil-Suécia não é pra vocês. Bye bye!

* Conforme as leis internacionais da escala Alfred Rosenberg de identificação racial. A empresa paulistana Heil!, que fabrica os melanômetros, não se responsabiliza por eventuais falhas dos medidores durante eventos "de massa".

14hs45m

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Obra-prima de John Ford confronta barbárie e civilização

Afinal, quem matou o Facínora?

Daria pra passar a vida toda falando de "O homem que matou o facínora". É um filme que resume como poucos um ideal de progresso afeito aos EUA, do qual Ford servia como porta-voz.

Algo do tipo: sim, seremos civilizados, mas se precisar iremos às armas. É o confronto do educador e advogado vivido por Stewart, e do cowboy Wayne, sempre marrento, cínico e realista.

O advogado conquista, com eloquência e inteligência, uma cidade perdida no oeste, e daí iniciará uma promissora carreira política. Na peleja pessoal por uma garota (Vera Miles), sairá vencedor. É um americano que não distingue brancos e negros, que afirma a superioridade moral de sua nação.

Entretanto, Ford não poderia abandonar seu melhor vaqueiro. É o tosco Wayne que permite o caminho livre para o advogado. É ele o guerreiro, o anjo protetor, capaz até de colocar questões pessoais de lado, de perder o rancho num incêndio e a garota que deseja.

Ford é um ilusionista, e provoca o espectador ao mostrar que foi o advogado que matou tal facínora (vivido por Lee Marvin); a vitória da inteligência sobre a brutalidade (pois se o Rancheiro e o Advogado fazem parte do progresso, o Bandido deve ser exterminado)? Haverá inteligência numa bala que mata?

O filme concluirá que sim, pois tratamos de uma inteligência singular, brutalmente singular. O homem letrado não a possui, embora seja relevante que fique com os méritos. É aí que entra o velho pistoleiro, virtuose e tão importante quanto qualquer educador.

23hs28m

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Filme "família" de Ford abusa de clichês e racismo

John Wayne e Maureen O´Hara: como era cinza esse vale...

Quase sempre pega mal não falar bem de clássicos. Ao menos para quem almeja uma perspectiva crítica. Entretanto, é coisa hercúlea dissociar o aspecto meramente passional do suposto crítico daquele mais objetivo, que pode tentar o escriba a assinar que tal filme é uma "obra-prima" enquanto boceja de tédio.

Com todo meu gradiente de pretensão e presunção, tendo a dar valor aos filmes "intocáveis", no sentido de compreendê-los sob o maior número possível de prismas. Não é fácil, naturalmente. Entretanto, creio que minhas linhas de raciocínio não são lá coisa muito exótica, e não sei se isso é bom.

Quero dizer: nunca vi um só momento ruim em Godard. Nem em "Detetive" ou "Carmen", que pra muitos são inférteis. Também nunca vi um Bergman ruim, adorei até o "Olho do diabo". Após ver com certo tédio "O silêncio", pela primeira vez, me resolvi dar outra chance ao longa e quase me casei com ele.

As opiniões são minhas, são meu íntimo que deixou de ser livresco há muito, são um olhar e Ponto. Mas ainda não consigo ter tanto respeito por todos os "intocáveis." Por exemplo, já me enfastiei tremendamente com Orson Welles, pode isso? Em Visconti ou Rosselini já senti desníveis. "Rastros de ódio", de John Ford, nunca me trouxe o menor encanto, apenas respeito. Ao contrário de "No tempo das diligências" e "Como era verde meu vale".

Por falar em Ford, lá fui eu ver, pela primeira vez, "Rio Grande", de 1950, com Maureen O´Hara e, pela 956º vez, John Wayne.

A melhor sequência do filme é um plágio do cinema de Ford, da famosa correria de "No tempo das diligências" (e de vários outros westerns seguintes).

A história é um repeteco ideológico do melhor cinema de Ford, repleto de serestas meio chauvinistas, meio irlandesas; um John Wayne como veremos nos outros 955 filmes (ou talvez até melhor); um clima de cansaço do gênero, algo como "cumprir tabela", e na verdade o faroeste estava em tempos dourados (o que explica o sucesso do filme).

Como tudo em Ford, é um filme no qual as identificações com os tipos que "construíram a América" é primordial: o branco guerreiro, o índio sacana e assassino, a disciplina militar (hoje certamente Rio Grande seria chamado de "fascista"), a força da mulher enquanto progenitora e mãe zelosa etc.

A presença da família é o fio condutor, já que, por conta do acaso, o filho do comandante vivido por Wayne é seu próprio filho, e mamãe irá ao acampamento para tentar levá-lo pra casa. Naturalmente, os sinistros apaches têm planos diferentes.

Ao contrário de outros Ford, parece feito com o "Manual de como se fazer um Western". Esse manual deve estar em quase todo mundo que já fez faroestes, seja Robert Aldrich, John Sturges ou Don Siegel. Ou talvez tenha faltado combinar previamente com meu mau-humor, sempre de prontidão feito chuva no churrasco.

Naturalmente não poderia incluir obras-primas como "Duelo de titãs" (Sturges), "E o sangue semeou a terra " (Anthony Mann), e muito mais coisas. "Os imperdoáveis" ainda me parece algo insuperável, de um força tonitruante intrigante, e já estávamos muito distantes dos grandes anos do faroeste. Mas com "Joe Kidd", "Rio Grande" ou até o quase-divertido "Quatro heróis do Texas", fica díficil...

Ah, nem falei do porque do "racismo" no título da postagem. Mas afinal, é necessário explicar por quê?

00hs59m