"Father"
Desde o lançamento de “A árvore da vida” e sua vitória em Cannes, percebo o quanto se dividiu a crítica a respeito. É uma obra complexa, como era “Apocalipse now” ou “Taxi Driver”, cada qual a seu modo. Daquelas que nos impelem a juízos precipitados – vide as vaias em Cannes (ou os aplausos muito corteses).
De qualquer forma, existe uma singularidade no filme, para além da beleza solene e majestosa e a belíssima fórmula de montagem que caracteriza o cinema de Terry Malick que muito tem ocupado os críticos: seu aspecto supostamente religioso. Ou para alguns: um excessivo sentimento paternalista que caracterizaria o filme.
Coloquemos algumas especulações.
Em algum momento de seu livro "Easy Riders, Ranging Bulls, como a geração sexo-drogas-rock´n´roll salvou Hollywood”, Peter Biskind comenta as reações a “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, após imensa expectativa por seu lançamento. Depois de um processo traumático de produção, onerosos gastos, loucuras e abusos, saía aquela jornada para o “coração das trevas”, sombria, insana, drogada, retrato do artista em crise e painel dos EUA pós-Vietnã.
Segundo Biskind Coppola – atráves de seu capitão Willard (Martin Sheen) não tinha dúvidas sobre que fazer com o coronel Kurtz, vivido por Marlon Brando, quando o encontrasse. É aquela figura sinistra que precisará, enfim ser, derrotada. E certamente é mais que isso. Marlon Brando, como persona, sempre pareceu muito maior que Coppola, Friedkin, Scorsese ou George Lucas. Ícone de outra geração, já consagradíssimo ao chegar em “Poderoso chefão”, filme que daria imenso poder e autonomia a Coppola.
Já no primeiro “Godfather”, Coppola, sempre afeito a famílias e famiglias, não questiona o poder de seu Vito Corleone (Brando). O esperto e calmo Michael (Al Pacino), filho caçula, sem deixar respeitar seu pai, assume ao seu modo a condução da família após a morte do “chefão” – massacra sem dó os inimigos. Daí em diante, todos saberemos quem é o real “godfather”. Se Coppola sentiu-se diminuído por um herói de outra geração, a quem muitos tributavam os maiores méritos da obra, parece ter expurgado seus demônios em “Apocalipse Now”.
São especulações, é evidente. Mas, conforme o próprio Biskind e muitos outros acentuaram, a geração que surgiria nos anos 60 e 70 é frequentemente apossada por sentimentos parricidas. Dentro da vontade de transgressão, ao estilo “Bonnie e Clyde”, ou “Sem destino”, de Dennis Hopper – road movies transgressores, aos quais se pode somar outro, menos célebre: “Terra de ninguém” (Badlands), de Terrence Malick.
Em “Badlands” o personagem de Martin Sheen (de novo!) mata o pai de Sissi Spacek. Ela? Parece não ter "processado" direito, afinal o que importa é o sentimento de estar com seu amante e “sair pelo mundo afora”. Era o que Hollywood fazia naquele momento, e não à toa os road movies da época foram marcantes. Caso de “Alice não mora mais aqui”, com o teor libertário, algo romântico, em sintonia com os filmes anteriores de Martin Scorsese, “Caminhos perigosos” (Mean streets) e “Sexy e marginal” (Boxcar Bertha).
Outro filme de estrada digno de memória é o curioso “Encurralado” (Duel), de Steven Spielberg. Pouco após as cenas nada heróicas do tosco detetive vivido por Gene Hackman em “Operação França”, a velocidade aqui ganha importância ímpar, numa obra sobre o irracional, o medo do desconhecido, a necessidade de superação, o desamparo – um filme um tanto parecido com “Tubarão”.
Por falar em parricídio, haveria melhores exemplos que Spielberg e George Lucas? De “Contatos imediatos” a “Império do sol”, passando por “ET”, sempre o desamparo paterno teve de buscar outra mediação. O terceiro “Indiana Jones” parece, ainda nos anos de 1980, um tentativa de reconciliação e perdão – talvez mais de Spielberg (diretor) e Lucas (roteirista e produtor) que do resto da geração.
Sem falar nos garotos perdidos do Coppola anos 80 em "Vidas sem rumo" ou "O selvagem da motocicleta" (Rumble Fish). Seu recente “Tetro”, de modo complexo, também coloca a questão pai – filho, num processo complexo de reconciliação, como que apotando, tal qual o filme de Malick, para uma mudança de posição.
Tanto George Lucas como um Paul Schrader sofreram com seus pais, foram marcados por convívio dificílimo com a figura paterna na juventude, e parecem ter dedicado boa parte de sua arte para literalmente promover seu desligamento – ou agressão. No caso especial de Lucas, é algo evidente em “Star Wars”, sua clara alegoria da batalha bem versus mal num filme infantil – matriz de um processo de infantilização que perdura até hoje. E logo saberemos que a relação de Luke Skywalker e Darth Vader não é apenas o duelo de dois inimigos.
Por onde andaria essa geração? Dennis Hopper já morreu. William Friedkin e Peter Bogdanovich há muito não parecem lembrados. Sem falar em Brian De Palma. Coppola filma quando quer. Spielberg reina no cinema espetáculo. Curiosamente, terá sido Terry Malick, perfeccionista obcecado, o mais indeciso dos cineastas, sempre trabalhando em ritmo lento, o homem que propõe uma “trégua”, ou um entendimento de que nosso espaço pra transgressão já se foi há muito tempo? Não será esse o criticado aspecto paternalista de “A árvore da vida", talvez uma opção mais consciente e clara sobre o envelhecimento de uma geração?
Aliás a mesma que megavalorizou o papel do "autor", e parece ter desabado quando os jovens gênios dos anos setenta passaram a estourar o orçamento com fracassos - Spielberg em "1941", Coppola com "Apocalipse now" (embora tivesse seu retorno), Friedkin com "Comboio do medo" e o caso mais gritante: Michael Cimino, de "gênio" em "O franco atirador" a maldito eterno" em "O portal do paraíso", o filme mais caro feito até então (45 milhões, absurdo à época, que rendeu menos de 2 mi em bilheteria).
E "The tree of life"?
É claro que o Pai no filme (Deus, para uns, numa discussão polêmica) tem sua culpa interna – após a morte de um dos filhos, anunciada logo no início. Mas há os sentimentos do Filho face a ele, a desconfiança e o desejo de vê-lo morrer, o ciúme edipiano em relação à mãe, o amor ao irmão.
“A árvore da vida” pode ser definido como um filme sobre a Criação. Tudo ali colide perfeições com imperfeições – um bandido, surge um aleijado, a miséria, o sentimento de fracasso que o Pai (Brad Pitt) não quer que chegue aos filhos. Adulto, o Filho (Sean Penn) medita, logo no início, sobre o egoísmo da humanidade. Malick, filósofo existencialista, prossegue fatalista como em seus “Cinzas no Paraíso” ou “Além da linha vermelha”, num universo no qual nossa autonomia é pra lá de restrita.
Sua busca por compreensão de nosso desamparo talvez seja uma boa pista para rever seu filme, deslumbrante visualmente tanto quanto intrigante filosoficamente. Com frequência temos evocações de raízes (em vários sentidos da palavra), como em seus filmes anteriores, a presença telúrica, quando não o fogo renovador e a água conciliadora. E um tema seminal em sua obra é justamente nossa solidão num mundo um tanto “desenraizado”, algo tão afeito a sua geração, sempre disposta a "chutar o balde" ("Easy riders") na vida e da arte – Malick, antigo conhecido de Scorsese, Lucas, De Palma, Schrader etc.
E Malick, o parricida de “Badlands”, versa sem pudores sobre a criação e o sentido da vida – já que a rebeldia virou vitrine de boutique e parece não servir pra nada: pinta a união, a compreensão recíproca, sentimentos nada afeitos ao empreendedorismo selvagem e caduco de nosso tempo - algo daquele que Scorsese ridicularizou em "Depois de horas". Ou "O lado negro da força" do "Star Wars" de Lucas, diretores jovens derrotando pela criatividade produtores velhos. (Um evidente paradoxo, já que Lucas e Spielberg seriam peça-chave da "fundação" de um modus cinematográfico que enterraria os desejos de criação de seu geração, abrindo espaço novamente pra vingança dos produtores e do capital).
Malick, o metafísico que sempre quis entender nossa razão de ser no mundo, parece cansado da especulação vazia, da existência sem sentido, do caos do ódio e da guerra (como em seu “Além da linha vermelha”). Seus filmes, repletos de silêncio e contemplação, com planos profundos e claro fascínio pelos horizontes, sempre acentuaram essa noção de distanciamento dos sujeitos e sua alienação – a impossibilidade de tocarmos a essência “verdadeira” dos fatos – num mundo desprovido de sentido.
“A árvore da vida” ainda mantém seu respeito por aquilo que entende como incognoscível. Mas traz uma receita humanizadora, apontando para a compreensão e certo afã pelo reencontro – com o Pai, com alguma coisa que aparentemente deixamos pra trás e talvez não saibamos o que seja.
18hs52m